Para onde vai a educação?

Chegada do novo ministro Abraham Weintraub precisa envolver um choque de gestão. O problema é que a insistência em combater o “marxismo cultural” pode deixar as questões essenciais do MEC novamente em segundo plano

Vicente Vilardaga

iSTOÉ

Depois de cem dias perdidos sob o comando do téologo Ricardo Vélez Rodrigues, o Ministério da Educação (MEC) ganhou na terça-feira 9 um novo fôlego. Os sinais, no entanto, ainda são nebulosos. O novo ministro, o economista Abraham Weintraub, promete acabar com a letargia na pasta. Em tese, ele chega para fazer o serviço que Vélez não conseguiu realizar e colocar a máquina para funcionar. Seria, de fato, um avanço. O caminho que o ministro recém-empossado parece adotar, porém, produz uma sensação de filme repetido. Mais uma vez, as prioridades envolvem o aparelhamento do MEC para combater a cantilena do marxismo cultural, uma teoria conspiratória segundo a qual a esquerda dissemina suas ideias de modo indireto para enfraquecer as instituições conservadoras. No fundo, o que ainda está em jogo é a promoção de um ideário de direita com mudanças no conteúdo do material escolar e o aumento do controle sobre os professores. A se manter essa toada, a educação no Brasil permanecerá numa trilha perigosa em que o confronto ideológico para eliminar o pensamento de esquerda nas escolas tende a prevalecer sobre as necessidades reais de desenvolvimento educacional.

IDEOLOGIA O ministro Abraham Weintraub alega que há doutrinação nas escolas

Jovens apolíticos?

Por exemplo, ao mesmo tempo em que quer que Weintraub entregue resultados e cuide da gestão do MEC, que hoje convive com atrasos no cronograma, o presidente Jair Bolsonaro determina que ele centre fogo na despolitização das escolas. Na posse do ministro, o mandatário deu o tom. Declarou, para o espanto de muitos, que não quer que as novas gerações se interessem por política. “Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-la ao espaço no futuro”, disse. Weintraub foi na mesma linha: “Uma pessoa que sabe ler e escrever não vota no PT”. Ou seja, se ainda pairam dúvidas sobre a capacidade administrativa do novo titular da pasta, sobram certezas de que o viés doutrinário dificilmente será abandonado.

Na visão do governo, a educação está tomada por esquerdistas que querem catequizar crianças e jovens. E esse seria o principal fator a minar a melhoria do ensino no Brasil. O grande propagador dessa teoria é o filósofo Olavo de Carvalho, cuja influência sobre o MEC deve continuar. Assim como Vélez, Weintraub, professor de direito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também é seguidor do filósofo. “O ministro não me deve nada e não tem nenhum compromisso comigo. Ele apenas conhece as minhas ideias melhor do que as conhecia o seu antecessor”, afirmou Olavo.

Um sinal de que o caos administrativo combinado com a forte carga ideológica persistirá é que, no dia seguinte à posse, Weintraub substituiu os titulares de seis das sete secretarias do Ministério. O que todos os indicados têm em comum é a falta de experiência na área de educação. O secretário executivo será o economista Antonio Vogel de Medeiros, que substitui o tenente brigadeiro Ricardo Vieira. A entrega do cargo para um civil indica que o filósofo segue levando vantagem sobre os militares, que também disputam espaço no MEC. Para enfrentar o “marxismo cultural”, o ministro pretende no curto prazo controlar tudo que sair do Ministério, começando pelos livros didáticos. “Quero saber quando a sociedade brasileira vai receber um calendário com prazos, metas e prioridades para a educação”, disse a deputada Tabata Amaral (PDT-SP). Para especialistas, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) deveria ser a prioridade número 1 do MEC pelo fato de bancar salários de professores, infra-estrutura, transporte, material didático e tudo que importa na educação. Ocorre que o Fundeb vence em 2020 e o governo até agora não se moveu para renová-lo.

“O ministro não me deve nada e não tem nenhum compromisso comigo. Ele apenas conhece minhas ideias melhor do que o seu antecessor” Olavo de Carvalho, filósofo

O Brasil amarga índices sofríveis de educação. Há 2,7 milhões de jovens fora da escola e problemas graves de aprendizado. O País gasta hoje o equivalente a 6% do PIB com educação. O percentual supera a média dos países da OCDE, de 5,5%. Mas o gasto por aluno, de US$ 3,8 mil por ano, está muito abaixo dos países desenvolvidos, que é de US$ 10,5 mil. Na pré-escola todas as crianças de quatro e cinco anos deveriam estar matriculadas. Porém, 500 mil, 9,5% do total, não têm vaga – um índice assustador. Ou seja, Weintraub terá muitos problemas para resolver, além do marxismo cultural. Conseguirá?

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