O MONSTRO DO LAGO PARANOÁ.

Por Paulo Castelo Branco*

A lenda do monstro do Lago Paranoá parece ter sido originada à época do enchimento do lago projetado para Brasília. No fundo do lago, a uma profundidade de 40 metros, encontra-se a Vila Amauri, uma cidade submersa construída precariamente e habitada por trabalhadores na construção da Capital.

Diziam alguns antigos moradores que, quando o lago encheu, surgiram boatos de que um enorme peixe fora visto por pescadores de final de semana. A história entrou para as lendas que cercam a cidade.

É muito comum ouvir-se de pescadores, mais experimentados, que já fisgaram tambaquis de 5 metros e quase 200 quilos. Os relatos são tantos que acabam entrando no anedotário distrital.

Sei que na Escócia, pais do uísque e do Monstro do Lago Ness, há uma lenda que perdura por longos anos sobre a existência do bicho que, os estudiosos acreditam, pelos relatos de pessoas que dizem ter avistado o animal, se trata de um “plesiossauro”. Os relatos encantaram dois amigos meus, companheiros de mesa, vinhos e uísque, que decidiram visitar a Escócia em busca do monstro e das famosas destilarias.

Lá chegando, em carro com motorista, foram primeiro visitar as destilarias e provar o líquido na origem; com gelo, sem gelo, com tônica e, ignomínia, com Coca-Cola.

Após a degustação, seguiram para, rapidamente, conhecer o Lago Ness. A tarde caía e os dois, trôpegos, máquinas fotográficas em punho, se assustaram com o que viram. Um deles, afirma ter visto e fotografado o animal, e que ele era imenso e aterrorizante. O outro, mais comedido, sentindo que havia exagerado no consumo do refrigerante, afirma que estava muito escuro e não viu nada. Acomodaram-se no carro e adormeceram, só acordando em Edimburgo. Nas fotos, não se vê bicho algum.

Voltando ao nosso monstro, eu, assíduo frequentador das margens do Lago Paranoá, dias desses deparei-me com as águas do lago encrespadas e formando ondas altas, chegando a cobrir a ciclovia ali existente.

Ao chegar na área destinada à prática de Kitesurf, os adeptos do esporte estavam assustados. Um deles relatou que viu uma espécie de baleia imensa que saltava das águas em movimentos fortes, provocando quase um tsunami. A imprensa já havia chegado para documentar o inusitado episódio. Mães pegaram seu filho nos braços e saíram das margens do lago.

Pedi aos frequentadores para ver as fotos. Todas eram das ondas, e nenhuma do tal monstro. Cético, voltei para casa. À noite, por volta das dez horas, ouvi barulho intenso e contínuo que vinha do lago, parecia som de bate-estacas usado na construção civil. Em seguida, percebi que o bate-estacas servia de fundo a grunhidos de vários animais.

Pelo telefone, perguntei ao vigilante da quadra sobre o som. Ele respondeu que vinha do lago, e que vários moradores estavam preocupados. Ligara para o IBRAM, mas ninguém atendera.

O terrível som se espalhava por toda redondeza, chegando até às residências do governador, dos presidentes da Câmara, do Senado e das várias autoridades que vivem na região.

Já clareando, e sem dormir, recebi mensagem dizendo que o monstro havia se calado e estava descansando no gramado de um dos clubes localizados às margens do Lago Paranoá. Estava com uma espécie de colete de couro de vaca malhada, botas, chapéu de boiadeiro, camisa colorida e, com a língua de fora. Estava exausto por ter passado a noite inteira se esgoelando e incomodando o sossego de centenas de moradores.

Tomara que, na semana que vem, ele não volte.

Brasília, 3 de agosto de 2019.

*Paulo Castelo Branco. Para SOS Brasília.

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