O fim que nos assombra

Por: Redação SOS
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A imensa maioria de nós jamais ouviu tanto sobre a morte e nem a sentimos de tão perto como nestes tempos de Covid19.

Visando à preparação deste artigo, pude confirmar um tanto do que já sabia sobre ela e aprender outras muitas verdades, o que me veio por um passeio filosófico sobre o tema, proporcionado por grandes pensadores, de todos os tempos.

Juntando-se tudo o que vi, foi-me possível construir o seguinte texto – uma aglutinação de pensamentos, ditos populares, frases feitas e gracejos – o qual, penso, será interessante para os que mantêm distância regulamentar do assunto.

Restou-me a certeza de que a morte e os mistérios que a cercam, povoaram, habitam e manter-se-ão vivos nas mentes de cada um dos que viveram e dos que ainda graçam por esta “Terra de Meu Deus”, na qual todos somos imigrantes.

Entre todas as vicissitudes da vida, há um acontecimento que é inevitável para todos: a morte! Velhos e jovens, sãos e enfermos, ricos e pobres, todos, todos nós, devemos passar através dessa sombra. Em todas as idades se tem escutado o grito, a pergunta angustiosa: qual a solução do segredo da vida, isto é, qual o segredo da morte? (Max Heindel).

Os homens a temem como as crianças temem o escuro. E ambos esses medos são aumentados pelas histórias que se lhes contam (Francis Bacon). Entretanto, não vale a pena cultivar tal receio. Jules Michelet aconselha que se quisermos suportar a vida, devemos estar prontos para aceitar a morte, até porque, segundo ratificação de Sigmund Freud, o homem não tem poder sobre nada enquanto teme o seu fim. Quem não o teme, possui tudo.

É intrínseco a estas lições que os homens são como ondas: quando uma geração floresce, a outra declina (Homero).  Ninguém pode fugir à morte (Públio Siro), o que se diz com propriedade, eis que sabedores somos de que ela está escondida nos relógios (Giuseppe Belli), porque o tempo é uma invenção da morte. Ele não conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira (Mário Quintana).

Que dura lição para o ser humano, ser lembrado constantemente de que o preço da vida é a morte (J. Monod) e de que, conforme bem esclarecem o apóstolo Paulo e Vedanta, dia a dia morremos (1 Cor 15.31), sendo certo, como o ar que respiramos, que todos estamos morrendo um pouco neste instante.

Quantos de nós tememos o dia do encontro com o perecimento, o que, para muitos, de plano, é um paradoxo, eis que somos ávidos aspirantes à vida eterna, mas, inexplicavelmente, não nos atentamos para o fato de que o exício não é o sono eterno… É o início da imortalidade! (Maximilien Robespierre).

Em termos gerais, os seres humanos podem ser divididos em três classes: os que estão fadados à morte, os que estão preocupados com a morte e os que estão entediados até a morte (Winston Churchill).

Para os que se enquadram na segunda classe, resta aprender a lição de Joan Baez, para quem não podemos escolher como vamos morrer ou quando, mas, tão-somente, decidir como viveremos agora.

Normalmente, segundo Isaac Asimov, a vida é agradável e a morte é tranquila. O mal está na transição. Pensar neste momento da passagem é o que produz desconfortos. Cesare Pavese salienta que a morte é o repouso. Mas, o pensamento do fim é o perturbador de todo o repouso. O que fazer, então, para lidar com esse sentimento? Blaise Pascal nos mostra que é mais fácil suportar a morte, sem pensar nela, do que suportar o pensamento da morte, sem morrer.

Confúcio, Norman Cousins e Berthold Brecht buscam amenizar o momento de encontro com o decesso, tratado biblicamente como o nosso último inimigo a ser destruído (1 Cor.15:26), quando nos instigam a pensar que o desaparecimento não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e, quando esta existe, não existimos mais. Por isso, ela não é e nem deve ser tratada como a maior perda da vida, eis que tal perda está no que morre dentro de nós, enquanto vivemos. Entendendo estes ensinamentos, felizes seremos e sábios teremos sido se o finamento, quando vier, não nos puder tirar nada além da vida.

Aldo Bizzocchi, no seu “Diário de um Linguista”, fala sobre dois tipos de morte: a “matada” e a “morrida”, sendo que a “matada” acontece quando se morre pelas mãos de outra pessoa e a “morrida” quando decorre da ação de nossos próprios corpos, em razão de doença, velhice etc.

Eu acrescentaria a esse rol a “morte suicidada”, quando o ser humano se conduz a uma situação de aniquilamento, como no caso de um torcedor do Fluminense, disfarçado entre a torcida do Flamengo nas gerais do Maracanã, que não se contém e instintivamente comemora o gol do Fluzão, revelando-se.

Diversos ditos populares, produtos, também, da mais pura filosofia, tentam, de forma engraçada e definitiva, nos fazer aceitar o fato da inevitabilidade do túmulo, ao nos lembrarem de que hoje em dia, quem nunca morreu, está morrendo; que a morte acaba com a nossa vida; e que 98% das pessoas morreram em algum momento da vida e que os outros 2% morrerão em algum outro momento. Diante dessas constatações, entendamos que não devemos tentar matar a morte, porque isto não vai funcionar.

E a sabedoria popular não para nestas pérolas. Ensinam-nos, as ruas e suas vozes da experiência, sobre cuidados que devemos ter para não anteciparmos a chegada do nosso momento final.

O fazem repetindo as frases supostamente mais ditas ou ouvidas antes do ocaso, quais sejam: vai tranquilo que neste rio não tem piranha…; vai que dá!; acredite, já fiz isto várias vezes…; atira, se for homem!; pode pular, filhão! Papai te segura!; é o fio vermelho! Tenho certeza! Pode cortar!; escutei um barulho estranho…; fica tranquilo, este alicate é isolado; que caminhão?; tô com uma dor estranha no braço esquerdo…; eu posso explicar tudo!. Quem avisa, amigo é…

Mário Quintana, entendendo o sofrimento humano, desejou que a morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim… Que bacana!

Enquanto não nos confrontamos com a libitina, mantenhamo-nos vivos e atuantes, sabendo que é no exercício da morte diária que construímos a nossa natureza, caminhando rumo à perfeição, sendo isto o contrário do que se “ensina” nos parachoques de caminhões pelas estradas afora, nos quais se lê: não leve a vida tão a sério. Você não vai sair vivo dela mesmo!… Por isso, não perca tempo: vá pra casa dormir. “Chaves”, ao lado do “Seu Madruga”, traz a cereja do bolo, ao concluir que é melhor morrer do que perder a vida.

Quanto a mim, busco experimentar o que vivenciou Paulo: o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fil. 1:21).

 

Por Flávio Noronha

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