Claudine Fernandes
O avanço da inteligência artificial já faz parte da rotina da sociedade e vem transformando profundamente diferentes setores, incluindo a educação e o mercado jurídico. Ferramentas como ChatGPT, plataformas de automação jurídica e sistemas inteligentes de pesquisa passaram a integrar o cotidiano de estudantes, professores, escritórios de advocacia e departamentos jurídicos. Diante dessa nova realidade, cresce também um debate importante: a inteligência artificial representa uma aliada no ensino do Direito ou pode comprometer a formação acadêmica e o desenvolvimento do pensamento crítico?
A discussão ganhou força nos últimos meses com o aumento do uso dessas ferramentas por estudantes em trabalhos acadêmicos, pesquisas e atividades universitárias. Ao mesmo tempo em que a tecnologia facilita o acesso à informação e oferece mais agilidade em diversas tarefas, também levanta preocupações relacionadas à ética, à autonomia intelectual e à qualidade da formação dos futuros profissionais da área jurídica.
Levantamento realizado pelo Jusbrasil, em parceria com a Trybe e o ITS Rio, apontou que 77% dos profissionais do Direito utilizam inteligência artificial generativa ao menos uma vez por semana na rotina de trabalho. O dado demonstra como a tecnologia já está inserida no setor jurídico e reforça a necessidade de discutir seus impactos também dentro das universidades.
O Direito é uma área que exige interpretação, argumentação, análise crítica, responsabilidade ética e capacidade de tomada de decisão. Por isso, a incorporação da inteligência artificial no ambiente acadêmico precisa ocorrer de forma equilibrada e consciente. A tecnologia pode ser uma importante ferramenta de apoio ao aprendizado, mas não deve substituir o desenvolvimento intelectual dos estudantes.
É importante compreender que a inteligência artificial oferece benefícios relevantes para a formação acadêmica. Hoje, estudantes conseguem acessar conteúdos de forma mais rápida, organizar materiais, realizar pesquisas e otimizar processos de estudo com auxílio de ferramentas digitais. A tecnologia também contribui para ampliar o acesso à informação e democratizar o conhecimento, especialmente em um cenário de transformação digital acelerada.
No entanto, existem desafios que não podem ser ignorados. O uso excessivo ou inadequado dessas ferramentas pode comprometer habilidades fundamentais para a formação jurídica, como interpretação textual, construção de argumentos, escrita acadêmica e pensamento analítico. Quando o estudante utiliza a inteligência artificial apenas para substituir tarefas intelectuais, sem reflexão ou aprofundamento, existe o risco de enfraquecimento do aprendizado.
Além disso, questões éticas também precisam ser debatidas com responsabilidade dentro das instituições de ensino. O uso da inteligência artificial em trabalhos acadêmicos, pesquisas e avaliações exige transparência, orientação e construção de limites claros. As universidades possuem papel essencial nesse processo, não apenas no controle do uso dessas ferramentas, mas principalmente na formação de estudantes preparados para lidar com a tecnologia de maneira ética e consciente.
Outro ponto importante é que o impacto da inteligência artificial vai além da sala de aula. O próprio mercado jurídico já vive uma transformação significativa impulsionada pela tecnologia. Escritórios de advocacia, tribunais, departamentos jurídicos e empresas passaram a investir em automação, análise de dados, sistemas inteligentes e plataformas capazes de otimizar tarefas operacionais e ampliar produtividade.
Diante desse cenário, as instituições de ensino superior também precisam adaptar metodologias e estratégias pedagógicas para preparar os estudantes para uma realidade profissional cada vez mais digital. O desafio não está em combater a tecnologia, mas em ensinar como utilizá-la de maneira responsável, estratégica e alinhada aos princípios éticos da profissão.
A formação jurídica continua exigindo competências essencialmente humanas. Nenhuma ferramenta tecnológica substitui completamente a capacidade de interpretação, análise contextual, argumentação e sensibilidade social que o Direito demanda. O profissional da área jurídica precisa compreender pessoas, conflitos, normas e impactos sociais das decisões, algo que vai além da automação de tarefas.
Por isso, o equilíbrio entre inovação tecnológica e desenvolvimento humano será um dos maiores desafios do ensino jurídico nos próximos anos. A inteligência artificial tende a se tornar cada vez mais presente tanto na educação quanto no mercado de trabalho, exigindo adaptação constante de estudantes, professores e instituições.
Mais do que dominar ferramentas digitais, os futuros profissionais precisarão desenvolver pensamento crítico, responsabilidade ética e capacidade de análise. O diferencial continuará sendo humano. A tecnologia pode acelerar processos e ampliar possibilidades, mas a construção do conhecimento, da interpretação jurídica e da tomada de decisões conscientes continuará dependendo da formação intelectual e ética dos indivíduos.
Claudine Fernandes é reitora do Centro Universitário UniProcessus e atua na área de educação superior e formação acadêmica, acompanhando temas relacionados à preparação profissional, desenvolvimento estudantil e qualificação para carreiras públicas.



