Enem depois de anos longe da escola: por que a constância vale mais do que a intensidade

Por: Redação SOS

 

Marlom Andrade

Durante muito tempo, a ideia de voltar a estudar esteve associada a um sentimento de insegurança. Para milhares de brasileiros que passaram anos afastados da escola, abrir novamente um caderno, assistir a uma aula ou resolver uma prova pode parecer um desafio maior do que o próprio Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No entanto, essa realidade tem mudado. Cada vez mais adultos enxergam no exame uma oportunidade de transformar a própria trajetória, seja para ingressar no ensino superior, conquistar uma promoção no trabalho ou realizar um sonho que precisou ser adiado.

Os números confirmam essa tendência. Em 2025, o Enem registrou mais de 4,8 milhões de inscrições confirmadas, demonstrando que a prova continua sendo a principal porta de entrada para universidades públicas e também para programas como Sisu, Prouni e Fies. Entre esses candidatos, há um grupo que merece atenção especial: aqueles que decidiram recomeçar depois de anos longe da rotina de estudos.

É comum que essas pessoas sintam que estão em desvantagem em relação aos estudantes que acabaram de concluir o ensino médio. A sensação de ter esquecido conteúdos importantes e a impressão de que será necessário recuperar muitos anos de aprendizado em pouco tempo costumam gerar ansiedade e, muitas vezes, levam ao desânimo antes mesmo do início da preparação.

Esse é um dos maiores equívocos de quem retorna aos estudos. O desempenho no Enem não depende da quantidade de horas estudadas em um único dia, mas da capacidade de construir uma rotina consistente e sustentável ao longo dos meses. Mais importante do que estudar dez horas em um sábado é conseguir dedicar uma ou duas horas diariamente, de forma organizada e contínua.

Criar um cronograma compatível com a realidade de cada candidato é essencial. Muitos adultos conciliam trabalho, família, filhos e outras responsabilidades, o que torna inviável seguir planejamentos rígidos ou metas irreais. Quando o cronograma não considera essa realidade, a tendência é que ele seja abandonado rapidamente, aumentando a sensação de fracasso.

Outro ponto fundamental é compreender que a preparação deve começar pelo fortalecimento da base do conhecimento. Antes de tentar dominar conteúdos muito específicos, vale a pena revisar conceitos essenciais de Língua Portuguesa, Matemática e interpretação de textos. Essas competências aparecem em praticamente todas as áreas da prova e servem como alicerce para compreender disciplinas mais complexas.

Ao fortalecer essa base, o estudante ganha confiança e consegue avançar de forma mais segura. A aprendizagem acontece em etapas, e respeitar esse processo torna o estudo mais eficiente e menos desgastante.

Além do conteúdo teórico, existe outro elemento que faz grande diferença na preparação: conhecer o perfil da prova. Resolver questões de edições anteriores e realizar simulados permite identificar os temas mais recorrentes, entender a forma como o Enem apresenta seus enunciados e desenvolver uma melhor administração do tempo durante a aplicação do exame.

Muitos candidatos sabem o conteúdo, mas encontram dificuldades para concluir todas as questões dentro do tempo disponível. Esse problema costuma ser reduzido quando o estudante incorpora simulados à rotina, pois passa a desenvolver estratégias para lidar com a pressão e com o ritmo exigido pela avaliação.

A redação também merece atenção permanente. Ela possui peso significativo na nota final e pode ser decisiva para a conquista de uma vaga na universidade. No entanto, escrever bem não é resultado apenas de conhecer a estrutura do texto dissertativo-argumentativo. É preciso praticar regularmente, buscar correções de qualidade e acompanhar os principais acontecimentos do Brasil e do mundo para ampliar o repertório sociocultural.

Outro aspecto que vem transformando a preparação dos candidatos é o uso da tecnologia. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas educacionais e recursos digitais oferecem novas possibilidades de aprendizagem, ajudando na organização dos estudos, na personalização dos conteúdos e na identificação de dificuldades específicas de cada estudante.

Essas tecnologias representam um avanço importante, principalmente para quem precisa estudar sozinho ou possui pouco tempo disponível. No entanto, é fundamental compreender que elas funcionam como instrumentos de apoio. Nenhuma ferramenta substitui o esforço individual, a leitura, a resolução de exercícios e o desenvolvimento do pensamento crítico, competências indispensáveis para um bom desempenho no Enem.

Também é importante lembrar que o processo de aprendizagem não acontece da mesma forma para todas as pessoas. Cada estudante possui um ritmo próprio, especialmente aqueles que passaram anos afastados da escola. Comparar a própria evolução com a dos outros costuma gerar frustração desnecessária e pode comprometer a motivação ao longo da preparação.

O caminho para uma boa nota não está na busca por métodos milagrosos nem em jornadas exaustivas de estudo. Ele passa pelo planejamento, pela disciplina e pela construção de hábitos consistentes. Pequenos avanços diários produzem resultados muito mais sólidos do que esforços intensos, porém passageiros.

Voltar a estudar exige coragem, mas também representa uma oportunidade de reescrever a própria história. O Enem não avalia apenas o conhecimento acumulado ao longo da vida escolar; ele também recompensa quem consegue desenvolver organização, persistência e capacidade de adaptação. Para quem decide recomeçar, essas características podem ser tão importantes quanto dominar os conteúdos cobrados na prova.

 

Marlom Andrade é empreendedor e especialista em tecnologia educacional. Fundador da Tutory, plataforma de gestão de mentorias e cursos online, desenvolve soluções com inteligência artificial, automação pedagógica e um banco com mais de 4 milhões de questões para apoiar estudantes, professores e mentores na preparação para concursos públicos, Enem, OAB e residências médicas.

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