Dados encaminhados pelo Itamaraty ao Congresso mostram que apenas a viagem de Lula à Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, teve custo de pelo menos R$ 6 milhões; hospedagem e serviços concentraram a maior parte das despesas
As viagens internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltaram ao centro do debate sobre o uso dos recursos públicos. Dados encaminhados pelo Ministério das Relações Exteriores ao Congresso Nacional mostram que a viagem de Lula a Nova York, em setembro de 2025, para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, custou pelo menos R$ 6 milhões aos cofres públicos.
O levantamento foi divulgado inicialmente pelo colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, a partir de informações fornecidas pelo Itamaraty à Câmara dos Deputados. Os valores apresentados incluem despesas com hospedagem, aquisição de materiais e serviços, além de intérpretes.
O custo chama atenção principalmente pelo volume de recursos empregado em uma agenda internacional concentrada em poucos dias.
Quase R$ 3 milhões somente em hospedagem
Segundo os dados do Itamaraty, a hospedagem da delegação brasileira em Nova York consumiu aproximadamente US$ 553,3 mil, valor convertido na divulgação para cerca de R$ 2,9 milhões.
Outros US$ 603,2 mil, equivalentes a aproximadamente R$ 3,2 milhões, foram destinados à aquisição de material de escritório e serviços de interpretação.
Também foram registrados R$ 98,7 mil em despesas extras com intérpretes. Somados, os valores divulgados alcançam aproximadamente R$ 6 milhões.
O montante, porém, deve ser tratado como parcial, já que os documentos encaminhados ao Congresso não necessariamente representam todas as despesas indiretas relacionadas à viagem presidencial.
Hotéis de alto padrão concentram parte da conta
Outro levantamento divulgado posteriormente, também baseado em informações obtidas junto ao Itamaraty, detalhou os gastos com hospedagem das viagens internacionais de Lula e da delegação brasileira ao longo de 2025.
Segundo os dados, as viagens presidenciais e da delegação brasileira registraram R$ 19,9 milhões em hospedagem durante o ano, distribuídos por agendas em 16 países e 59 dias de compromissos internacionais.
Na viagem a Nova York para a Assembleia Geral da ONU, o custo de hospedagem chegou a aproximadamente R$ 2,92 milhões. O valor colocou a agenda de Nova York entre as viagens internacionais mais caras do ano nesse quesito.
Documentos e informações divulgados sobre a viagem também apontam gastos elevados com a hospedagem da comitiva presidencial em diferentes estabelecimentos da cidade.
Segundo os dados apresentados na pauta, o Grand Hyatt New York recebeu mais de R$ 2,2 milhões pela hospedagem vinculada ao presidente, enquanto o Park Lane concentrou mais de R$ 1 milhão em despesas referentes à delegação.
Os valores precisam ser analisados dentro da estrutura de segurança, logística e organização de uma viagem presidencial, que envolve não apenas o chefe do Executivo, mas servidores, assessores, segurança, diplomatas e equipes de apoio.
Uma comitiva de mais de 100 pessoas
A dimensão da delegação também ajuda a explicar parte da conta.
A viagem para Nova York contou com mais de 100 integrantes na delegação oficial, incluindo autoridades e representantes de diferentes ministérios.
A Presidência da República e seus órgãos possuem mecanismos oficiais para registrar despesas de viagens. O próprio governo orienta que os gastos com diárias e passagens podem ser consultados no Portal da Transparência, com filtros por órgão, período, pessoa, destino e tipo de viagem.
Isso permite que os custos de uma agenda presidencial sejam acompanhados individualmente, além dos valores consolidados divulgados pelo Itamaraty.
Quanto custaram as viagens anteriores à ONU?
A comparação com outras edições da Assembleia Geral da ONU ajuda a dimensionar a variação dos gastos.
Em 2023, a viagem de Lula que incluiu a Assembleia Geral da ONU, além de uma passagem por Cuba, teve custo informado de aproximadamente R$ 16 milhões.
Em 2024, o valor estimado ficou em torno de R$ 8,5 milhões.
Já em 2025, os dados encaminhados ao Congresso apontaram inicialmente pelo menos R$ 6 milhões para a viagem a Nova York. Os números, entretanto, não são necessariamente diretamente comparáveis, porque as agendas, duração, composição das delegações, serviços contratados e despesas incluídas em cada levantamento podem variar.
A agenda internacional de Lula em 2025
A viagem à ONU fez parte de uma intensa agenda internacional do presidente.
Segundo levantamento divulgado em março de 2026 com base em dados do Itamaraty, Lula e delegações brasileiras estiveram em 16 países durante 2025, somando 59 dias de compromissos internacionais. As despesas somente com hospedagem chegaram a R$ 19,9 milhões.
A viagem que mais consumiu recursos em hospedagem naquele levantamento foi a Paris, em junho de 2025, com R$ 6,34 milhões. Nova York apareceu em seguida, com R$ 2,92 milhões.
Os números colocam uma questão recorrente no debate sobre viagens oficiais: quanto custa manter uma estrutura presidencial no exterior e quais resultados concretos essas agendas produzem para o país?
Viagens oficiais: diplomacia ou despesa excessiva?
Viagens presidenciais ao exterior têm finalidade diplomática, política e econômica. Participações em organismos multilaterais, reuniões bilaterais, negociações comerciais e encontros com chefes de Estado fazem parte das atribuições do presidente da República.
O debate, portanto, não se limita à existência ou não dessas viagens, mas também envolve transparência, planejamento, tamanho das delegações, escolha de hospedagens e relação entre os custos e os objetivos das agendas.
No caso da viagem de Lula a Nova York em 2025, os documentos encaminhados ao Congresso permitem visualizar uma parcela significativa da conta: milhões de reais destinados à hospedagem, serviços e estrutura de apoio.
Ao mesmo tempo, os dados disponíveis não permitem concluir, isoladamente, que houve irregularidade ou desperdício ilegal de dinheiro público. A avaliação sobre a necessidade, dimensão e custo-benefício das viagens é uma questão que permanece no campo do debate público.
O que os números mostram de forma objetiva é que a diplomacia presidencial tem um custo elevado para o orçamento brasileiro — e que, diante de valores milionários, a transparência sobre cada despesa se torna fundamental para que a sociedade possa acompanhar como o dinheiro público está sendo utilizado.
Por Rodrigo Albuquerque



