Um casal foi preso em flagrante na sexta-feira (25/9), suspeito de envolvimento na morte do bebê, achado em um terreno da Quadra 400. O laudo do Instituto de Medicina Legal ainda vai determinar se a criança estava viva quando foi deixada no local. As circunstâncias seguem sob investigação.
A manhã de sexta-feira (25/9) no Recanto das Emas começou com uma cena que abalou quem estava por perto. Por volta das 7h50, o corpo de um recém-nascido carbonizado foi encontrado em um terreno da Quadra 400, dentro de uma sacola plástica, junto a entulhos. A Polícia Civil do Distrito Federal trata o caso como um possível infanticídio e corre para juntar as peças do que aconteceu nas horas anteriores.
Quem deu o alerta inicial foi uma cliente de uma borracharia da região. O dono do estabelecimento, o borracheiro Adriano Pereira Leite Neto, de 45 anos, contou que percebeu a movimentação entre 7h20 e 7h30, quando abria o comércio. Ao se aproximar do terreno acompanhado da cliente, que acionou a polícia, ele se deparou com a cena. Abalado, disse não ter conseguido trabalhar depois disso e relatou não ter notado nenhuma movimentação estranha na área antes do ocorrido.
A chegada aos suspeitos
A Polícia Militar foi a primeira a chegar ao endereço. A partir de informações de populares sobre uma mulher grávida que morava em um prédio próximo ao terreno, em um imóvel sobre o piso comercial, as equipes localizaram a residência. A própria moradora, de 35 anos, atendeu à porta.
Em conversa informal com os policiais militares, a mulher contou que na quinta-feira teve sangramentos intensos e que, na madrugada de sexta-feira, sentiu fortes cólicas e teria sofrido um aborto espontâneo ao urinar. Segundo o relato, nervosa, ela colocou o corpo em um saco plástico, caminhou cerca de 50 metros e o deixou junto a entulhos. Ela negou ter ateado fogo no local.
À tarde, a Polícia Civil ouviu o companheiro dela, que havia deixado o sistema prisional havia quatro meses. De acordo com a polícia, ele apresentava sinais de embriaguez durante o depoimento e deu ao menos duas versões diferentes: primeiro afirmou não saber da gravidez, depois disse ter saído para trabalhar e voltado para casa às 6h, quando o bebê já teria sido descartado.
O problema para essa versão é o que registraram as câmeras de segurança. As imagens colhidas pelos investigadores mostram a mulher na porta de casa com o saco plástico. Ela caminha até um ponto e recua. O companheiro, então, aponta na direção do local onde o corpo foi deixado, e ela segue até lá e conclui a ação.
O mistério do fogo
Um dos pontos que a investigação ainda precisa esclarecer é a origem das chamas. Segundo o delegado-adjunto da 27ª Delegacia de Polícia, Zander Pacheco, o incêndio que atingiu a área foi provocado por um homem ainda não identificado, por volta das 3h, cerca de uma hora depois de o bebê ter sido colocado no terreno. Moradores relatam que incêndios são frequentes no local durante a madrugada, e a polícia apura se essa terceira pessoa agiu intencionalmente ou se tem alguma ligação com o casal.
O casal foi preso em flagrante. Agora, duas respostas dependem de perícia. O laudo do Instituto de Medicina Legal vai indicar se o bebê estava vivo quando foi deixado no terreno, elemento central para a tipificação do crime. Já a perícia feita na casa da mulher deve verificar, entre outros pontos, se houve ingestão de medicamentos abortivos.
Investigação, não conclusão
É importante sublinhar o estágio do caso: nenhuma das versões apresentadas até agora é conclusiva. A afirmação da mulher sobre o aborto espontâneo, as contradições do companheiro e a ação do homem que ateou fogo são elementos que a polícia ainda precisa cruzar com os laudos técnicos. Até lá, não há responsabilização definitiva, e a presunção de inocência vale para todos os envolvidos.
O caso também pede cuidado na leitura. A psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, ouvida pelo Correio Braziliense, alerta que não se pode pré-julgar uma situação como essa. Segundo ela, em casos extremos é preciso investigar a possibilidade de um transtorno mental grave, como um episódio psicótico, depressão grave com sintomas psicóticos ou transtorno bipolar não tratado, quadros em que a pessoa pode perder o contato com a realidade. Mas a especialista ressalva que existem também outras possibilidades e que nenhuma violência contra uma criança deve ser automaticamente atribuída a um transtorno mental sem avaliação. Para ela, o caminho é uma investigação cuidadosa e, quando indicada, uma avaliação psiquiátrica.
A apuração segue na 27ª DP, no Recanto das Emas. Novas informações devem surgir com a conclusão dos laudos do IML e da perícia residencial.
Por Rodrigo Albuquerque




