Governo prevê cinco unidades até 2027, mas só a do Gama entrou em funcionamento; especialistas ouvidos pelo g1 defendem diálogo com moradores e integração dos serviços à comunidade.
O Distrito Federal precisa ampliar o atendimento em saúde mental e, ao mesmo tempo, enfrenta resistência à instalação de centros destinados a essa finalidade. Uma reportagem do g1 publicada neste domingo (27) examina por que a abertura de Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, provoca protestos em algumas regiões. A discussão mistura dúvidas reais sobre o uso de terrenos públicos, cobrança por participação e ideias falsas sobre os pacientes.
Estão previstas cinco novas unidades até 2027, em Taguatinga, Ceilândia, Guará, Gama e Recanto das Emas. Até o momento descrito pela reportagem, apenas o Caps do Gama havia começado a funcionar, em julho. Não se deve apresentar a meta como cinco centros já entregues. O DF tinha 19 Caps e cobertura de 0,54 unidade para cada 100 mil habitantes, segundo os dados citados pelo g1.
A localização nos bairros não é um acidente do projeto. O modelo de cuidado psicossocial do SUS busca atender pessoas em sua comunidade, com reintegração à vida cotidiana em vez de afastamento sistemático do convívio social. A presença de uma unidade perto de residências, por si só, não comprova risco à segurança. O estigma alimentado por memes e comentários sobre saúde mental, segundo a subsecretária Fernanda Falcomer, dificulta que a população entenda o serviço.
Isso não significa que toda objeção de um morador seja preconceito. Em Taguatinga, a controvérsia envolve um terreno público que ficou sem uso por anos e foi cuidado pela vizinhança. Moradores cobram participação na decisão sobre a área. O professor de arquitetura da UnB Frederico Flósculo, ouvido pelo g1, defende audiências públicas e critica um padrão de equipamentos cercados por muros, que poderia reduzir a integração do serviço com o bairro.
Há, portanto, duas perguntas distintas a responder. A primeira é se o DF precisa da rede de saúde mental prevista: o déficit de cobertura mostra demanda por assistência. A segunda é como escolher, desenhar e explicar as unidades de forma transparente, para que um equipamento de cuidado não seja percebido como imposição sobre uma comunidade sem voz. Responder à segunda não exige abandonar a primeira.
A subsecretária de Saúde Mental afirma que os terrenos usados são públicos e destinados a equipamentos públicos. Já o debate apontado por urbanistas e moradores é sobre a qualidade do processo e a convivência com outros usos locais, como espaços de lazer. Um projeto com circulação, atividades abertas e comunicação clara pode aproximar políticas de saúde e demandas do bairro, mas requer decisões concretas, não apenas uma campanha de imagem.
O SOS BRASÍLIA seguirá distinguindo fatos de receios: uma obra prevista não é uma unidade inaugurada; a reivindicação por consulta pública não equivale à rejeição do atendimento; e pessoas que buscam tratamento não são ameaça presumida. A saída duradoura depende tanto de serviços suficientes quanto de diálogo que permita à vizinhança saber o que será instalado e participar do desenho do espaço.
Por Rodrigo Albuquerque




