A alma de Brasília

Por: Redação SOS

Toda cidade tem uma alma. São Paulo possui a alma de cidade industrial – respira negócios dia e noite. O Rio tem uma alma cultural – vive a espetacularização do entretenimento e o glamour de uma cidade apaixonada pela diversão. BH, por sua vez, é o retrato autêntico da alma ansiosa pela degustação de guloseimas e petiscos saídos do rabo de fogão. Mas, e Brasília?

Alguns diriam que Brasília tem alma política – articula, respira, transpira e conspira o tempo todo, como se a política fosse a única coisa a ser levada em conta por essas bandas do Centro-Oeste. Aqui, Planalto, Alvorada, Buriti não são coisas da natureza, melhor dizendo: São, sim, mas de outra natureza – a natureza política.

Apesar de parecer tão óbvio, gostaria de lançar um novo olhar sobre a alma de Brasília – a alma carregada de sentimentos e emoções, de sonhos e esperanças, de devoção e meditação, de beleza e dos encantos – a começar pelo indescritível alvorecer.

Sempre me surpreendo com os primeiros raios de sol derramados sobre a nossa cidade. É uma nova obra de arte divinamente estampada sobre a tela do azul infinito a cada manhã. O que isso significa? Que a cidade já acorda iluminada pela possibilidade de novos começos. O alvorecer do dia traz consigo os lampejos de novas ideias e perspectivas de vida, iluminando as mentes de seus habitantes com o vislumbre do novo ser que pode ressurgir a cada manhã.

E os extensos gramados? São como tapetes de esperança que – a exemplo da força da natureza vencendo a aridez do cerrado com a chegada da chuva – simbolizam o poder da fé que remove montanhas de desilusões fazendo florescer novas perspectivas com a chegada dos chuviscos das oportunidades.

O que dizer do encontro permanente do céu com a terra na linha do horizonte? São 360° de interação entre o celestial e o terreno, entre o eterno e o efêmero, entre o sagrado e o profano, entre a imensidão e a pequenez. Faz-nos refletir que não estamos sós. Há um toque, uma conexão, um contato que não se interrompe. Há uma corrente contínua que energiza corações e mentes em busca da paz de espírito, na certeza da existência de algo mais relevante e bem maior do que a nossa vã filosofia é capaz de decifrar totalmente.

Mas Brasília não é feita só de abstratos. Sua alma também se revela na concretude dos traços. Entre linhas retas ou curvas, suaves ou agudas, curtas ou extensas, surgem desenhos quase mágicos saídos da prancheta da genialidade de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Nos contrastes do côncavo e do convexo, marcas registradas de suas criações, surgem inquietantes metáforas das contradições humanas. Forças e fraquezas, ricos e pobres, doutos e indoutos, sucessos e fracassos, alegrias e tristezas se manifestam por meio das idas e vindas e dos altos e baixos na tessitura da história da humanidade e que se refletem nas fachadas iluminadas de Brasília.

Além da geometria dos riscos e rabiscos, Brasília é feita de espelhos. Espelhos d’água, nas cercanias dos palácios e nas suntuosas piscinas que emolduram impolutas mansões; espelhos fluidos dos cursos d’água que serpenteiam por grotas e vales até desaguarem no espelho maior do Lago Paranoá; espelhos de cristal, nas pomposas fachadas palacianas ou no interior dos amplos salões de festa. Há, também, os límpidos espelhos dos salões de beleza que enaltecem o estético em detrimento do ético, contrastando com os cacos de vidro espelhados “enfeitando” rústicas paredes de míseros casebres. Espelhos que falam por si. Inexpugnáveis fossos impondo limites aos transeuntes ou confundindo a revoada dos pássaros com seus falsos infinitos. Trágicos espelhos que refletem a face oculta da opulência em flagrante afronta à imagem opaca de rostos anônimos aviltados pela dor e pela fome.

Apesar dos pesares, convém lembrar que existem ocasos em Brasília. Aqui o pôr-do-sol tem um poder de atração inigualável. A pujança e o intenso fulgor do astro-rei vão cedendo lugar ao laranja-avermelhado, à medida que se esconde atrás da linha do horizonte, coagido por densas nuvens de algodão e chumbo chamuscadas de fogo em suas extremidades. É o fim do dia. A noite se aproxima a passos lentos deixando bem claro suas reais intenções. Não há pressa para ocupar seu espaço – é só uma questão de tempo! Nada, ou ninguém, será capaz de impedir sua entrada em cena até reinar absoluta como a “dona do pedaço”. Isto significa que coisa alguma é para sempre. O poder, a riqueza, a força, o vigor, a beleza, as conquistas e os pendões, ao derramar das areias da ampulheta do tempo, findarão ofuscados pelo entardecer da vida.

Brasília simboliza um pouco de tudo isso. Sua alma não difere muito da alma das pessoas que aqui vivem. Tal como nós, a cidade pensa, deseja, sente, almeja e professa tudo o que nós projetamos para nós mesmos, pelo inexorável fato de sermos partícipes de sua vida e história. Abrigados em suas asas, sonhamos com dias melhores. Embalados por sua energia, ativamos nossos impulsos em busca do ideal. Espelhados em suas linhas, traçamos nossos caminhos na esperança de chegarmos ao ocaso dos nossos dias com a certeza do dever cumprido e a garantia de que nada do que foi feito será em vão, pois passará a fazer parte inseparável da alma da cidade que nos acolheu de braços abertos.     

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