“O Entregador” chega ao Sesc Ceilândia e transforma o palco em reflexão sobre o trabalho por aplicativos

Por: Redação SOS

Espetáculo gratuito será apresentado entre os dias 24 e 27 de agosto, com sessões às 16h e às 20h, e propõe um olhar crítico sobre precarização, empreendedorismo e as novas relações de trabalho

Brasília vive, todos os dias, uma cena que já faz parte da rotina das cidades: motocicletas, bicicletas e carros cruzando as ruas para entregar comida, encomendas e produtos solicitados por aplicativos. Por trás de cada pedido concluído, porém, existe uma realidade marcada por jornadas extensas, busca por renda, instabilidade e uma discussão cada vez mais presente sobre os limites entre autonomia e precarização.

É justamente esse universo que chega ao palco do Teatro Newton Rossi, no Sesc Ceilândia, com o espetáculo “O Entregador”, que terá temporada gratuita entre os dias 24 e 27 de agosto, sempre em duas sessões, às 16h e às 20h.

Com dramaturgia de Rodolfo Godoi, que também divide a direção com Kamala Ramers, a montagem utiliza o teatro para colocar em debate algumas das principais transformações do mundo do trabalho contemporâneo.

Em cena, os atores Flávio Café e Lupe Leal conduzem o público por uma narrativa que dialoga diretamente com a realidade de milhares de trabalhadores que dependem das plataformas digitais para garantir sua renda.

A promessa da liberdade e a realidade do trabalho

O crescimento dos aplicativos transformou profundamente a maneira como muitas pessoas trabalham. A possibilidade de definir horários e atuar de forma independente passou a ser apresentada como uma nova forma de empreendedorismo.

Mas essa promessa de liberdade também trouxe questionamentos.

Até que ponto existe autonomia quando o trabalhador depende de um aplicativo para receber chamados? Quem define as regras? Quem assume os custos? E o que acontece quando a renda depende de longas jornadas e da quantidade de entregas realizadas?

Essas são algumas das questões que atravessam “O Entregador”, espetáculo que propõe uma reflexão sobre trabalho, renda, relações sociais e as contradições do capitalismo contemporâneo.

Com duração de 60 minutos e classificação indicativa livre, a peça busca aproximar o público de uma realidade que não está distante. Pelo contrário: faz parte do cotidiano das cidades e das famílias.

“O Entregador trata de uma experiência muito próxima da vida dos estudantes, das famílias e dos trabalhadores do DF. A peça discute o trabalho por aplicativo, a precarização e a promessa de liberdade vendida pelo empreendedorismo. Levar esse debate para as escolas é uma forma de transformar o teatro em espaço de reflexão social”, afirma Rodolfo Godoi.

Teatro também como ferramenta de educação

A temporada no Sesc Ceilândia foi pensada especialmente para ampliar o acesso dos estudantes da rede pública ao teatro.

As sessões das 16h terão como público prioritário turmas do ensino regular. Já as apresentações das 20h buscam atender estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), alunos do período noturno, professores, trabalhadores e a comunidade em geral.

Para os grupos escolares, a experiência começa antes mesmo do espetáculo.

A proposta prevê uma atividade de mediação que busca preparar os estudantes para os temas apresentados em cena e abrir espaço para o diálogo sobre questões relacionadas ao trabalho e às experiências vivenciadas por suas próprias famílias e comunidades.

A iniciativa aproxima dois universos que, muitas vezes, caminham separados: a escola e o teatro.

Mais do que assistir a uma peça, a ideia é transformar a experiência cultural em uma oportunidade de conversa e reflexão.

As escolas públicas interessadas em levar estudantes precisam realizar agendamento prévio, sujeito à disponibilidade de vagas.

Um debate que atravessa a vida de milhares de brasileiros

A escolha do tema não é por acaso.

O trabalho mediado por plataformas digitais passou a ocupar um espaço cada vez maior na economia brasileira. Para muitos, os aplicativos representam uma alternativa de renda. Para outros, são a principal fonte de sobrevivência.

Ao levar esse debate para o palco, “O Entregador” propõe olhar para além da tela do celular e dos pedidos que chegam diariamente às casas dos consumidores.

A montagem questiona as relações entre tecnologia, trabalho e empreendedorismo e convida o público a pensar sobre quem são as pessoas que fazem a engrenagem dos aplicativos funcionar.

O espetáculo integra uma trajetória de pesquisa desenvolvida por Rodolfo Godoi, também responsável por trabalhos como “Übercapitalismo”, obra que já circulou por escolas, teatros e festivais no Brasil e no exterior.

A nova montagem amplia essa investigação e aproxima o debate de uma realidade cada vez mais presente nas ruas do Distrito Federal.

Cultura, educação e reflexão social em Ceilândia

Ao receber uma temporada gratuita, o Teatro Newton Rossi se transforma, durante quatro dias, em espaço para uma discussão que ultrapassa os limites do palco.

A proposta reforça a importância da democratização do acesso à cultura e da formação de novas plateias, especialmente entre estudantes e trabalhadores que nem sempre têm oportunidade de frequentar espaços culturais.

Com linguagem acessível e um tema diretamente ligado ao cotidiano da população, “O Entregador” convida o público a assistir, refletir e participar de uma discussão que está acontecendo agora, nas ruas, nos celulares e nas relações de trabalho.

Para quem procura uma programação cultural diferente em Brasília, a temporada no Sesc Ceilândia é uma oportunidade de ver o teatro abordar uma das grandes questões do mundo contemporâneo.


SERVIÇO

🎭 O Entregador

📍 Local: Teatro Newton Rossi – Sesc Ceilândia
📅 Data: 24 a 27 de agosto
🕓 Horários: 16h e 20h
🎟️ Entrada: Gratuita, com retirada de ingressos no local
🔞 Classificação indicativa: Livre

Sessões para escolas públicas

16h: público prioritário formado por turmas do ensino regular.

20h: estudantes da EJA, turmas do ensino noturno, professores, trabalhadores e comunidade escolar.

Agendamento para escolas: Formulário de agendamento

Ficha técnica

Dramaturgia: Rodolfo Godoi
Direção: Rodolfo Godoi e Kamala Ramers
Elenco: Flávio Café e Lupe Leal
Design de cenário e figurino: Thiago Sabino
Design de luz: Abaetê Queiroz e Larissa Souza
Operação de luz: Lemar Rezende
Operadora de som: Rudah Vieira
Mapping e projeção: Lucas Gonçalves
Sonografia: Abaetê Queiroz, João Marcelo Zinn, Rafael Maklon e Biel
Arte gráfica: Manuella Leite

O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF).

Por Rodrigo Albuquerque

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