Avanço das reestruturações transforma gestão de crédito em questão estratégica; fornecedores e parceiros comerciais precisam identificar sinais de deterioração financeira antes que a crise chegue à Justiça
O número recorde de empresas em recuperação judicial no Brasil está mudando a forma como companhias administram suas relações comerciais. Para fornecedores, prestadores de serviços e empresas que vendem a prazo, o desafio já não é apenas cobrar uma dívida vencida, mas identificar com antecedência quando um cliente começa a perder capacidade de pagamento.
O Brasil encerrou 2025 com 2.466 empresas em recuperação judicial, segundo o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian. O resultado representa alta de 13% em relação a 2024 e o maior volume registrado na série histórica do indicador.
O cenário ocorre em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais restrito, pressão sobre o caixa das empresas e aumento da inadimplência. Segundo os dados apresentados na contextualização, o número de CNPJs negativados também atingiu patamar recorde, ultrapassando 9 milhões de empresas.
Crise financeira deixa de ser problema apenas do devedor
A recuperação judicial tem como finalidade permitir que uma empresa economicamente viável reorganize suas dívidas e continue funcionando. Entretanto, quando uma companhia entra nesse processo, os efeitos ultrapassam suas próprias fronteiras.
Fornecedores que dependem daquele cliente podem enfrentar atrasos, renegociações, descontos e prazos maiores para receber. Em alguns casos, o problema pode atingir toda uma cadeia produtiva.
É justamente nesse ponto que especialistas citados no material defendem uma mudança de comportamento das empresas credoras.
“Quando o pedido de recuperação judicial é apresentado, muitas decisões que influenciam a capacidade de pagamento da empresa já foram tomadas.”
A avaliação é de Marco Antonio Galera Mari, sócio-diretor da Galera Mari Advogados, para quem esperar a publicação do processo judicial para começar a analisar o risco pode significar agir tarde demais.
O fornecedor também precisa olhar para o risco
Uma das principais mudanças apontadas pelo cenário é a necessidade de integrar três áreas que muitas vezes trabalham separadamente: comercial, financeiro e jurídico.
Antes de ampliar o limite de crédito de um cliente ou fechar um contrato de longo prazo, a empresa precisa conhecer melhor a capacidade de pagamento e as garantias envolvidas.
E o acompanhamento não termina depois da assinatura.
Atrasos recorrentes, pedidos de renegociação, mudanças abruptas nos prazos de pagamento e alterações no comportamento financeiro podem funcionar como sinais de alerta.
Também merecem atenção alterações societárias, concentração de dívidas, crescimento de processos judiciais e movimentações patrimoniais incompatíveis com o funcionamento habitual da empresa.
Nenhum desses sinais, isoladamente, significa que uma recuperação judicial irá acontecer. Mas, em conjunto, podem indicar a necessidade de reavaliar limites de crédito e condições comerciais.
O que acontece com quem tem dinheiro a receber?
Quando uma empresa entra em recuperação judicial, os créditos existentes antes do pedido passam a seguir as regras do processo, de acordo com sua natureza, classificação e eventuais garantias.
Isso significa que o credor pode ter de enfrentar mudanças no prazo de pagamento, descontos ou condições vinculadas à capacidade futura de geração de caixa da empresa devedora.
Por isso, contratos, notas fiscais, comprovantes de prestação de serviços e documentos relacionados às garantias deixam de ser apenas burocracia.
Eles podem ser fundamentais para demonstrar quanto a empresa tem a receber, qual é a natureza do crédito e quais direitos estão associados à dívida.
Recuperação judicial não significa simplesmente “perder o dinheiro”
Outro ponto importante é evitar uma interpretação simplista do processo.
A recuperação judicial não representa automaticamente a falência da empresa nem significa que todos os credores deixarão de receber. O objetivo do mecanismo é justamente possibilitar a reorganização de uma empresa que ainda tenha condições de continuar sua atividade econômica.
O problema para o credor está na incerteza sobre quando, quanto e em quais condições o pagamento ocorrerá.
Por isso, a participação no processo não deveria começar apenas quando chega a hora de votar um plano de recuperação.
Segundo Gerson da Silva Oliveira, sócio-diretor da Galera Mari Advogados, existem questões anteriores que precisam ser analisadas, como a existência do crédito, sua classificação, as garantias e a própria viabilidade econômica da proposta apresentada.
O risco pode estar escondido dentro da cadeia produtiva
O crescimento das recuperações judiciais também revela outro problema: a concentração de risco.
Uma empresa pode manter diferentes contratos com companhias pertencentes ao mesmo grupo econômico e, sem perceber, estar muito mais exposta a um único cliente do que aparenta.
Quando a recuperação judicial é apresentada, essa concentração fica evidente.
Para empresas fornecedoras, portanto, administrar o risco significa não apenas acompanhar cada cliente individualmente, mas também compreender quem controla as empresas, como estão distribuídas as dívidas e qual é a exposição financeira total daquela relação comercial.
Agro e serviços concentram grande parte das crises
Os dados apresentados mostram que o impacto não está distribuído de maneira uniforme entre os setores.
A agropecuária respondeu por 30,1% dos pedidos de recuperação judicial em 2025, pressionada por fatores como riscos climáticos e custos dolarizados.
Os serviços também representaram cerca de 30% dos pedidos. Comércio e indústria apareceram na sequência, com 21,7% e 18,2%, respectivamente.
O cenário mostra que a deterioração financeira pode alcançar diferentes modelos de negócios e reforça a necessidade de que empresas fornecedoras não tratem a análise de crédito como uma atividade restrita ao momento da venda.
O que muda para as empresas?
O recorde de recuperações judiciais cria uma nova realidade para quem vende a prazo.
A estratégia tende a migrar de uma postura reativa para uma gestão permanente de risco:
- analisar o cliente antes de conceder crédito;
- estabelecer limites compatíveis com sua capacidade financeira;
- acompanhar atrasos e mudanças de comportamento;
- revisar garantias e contratos;
- manter documentação organizada;
- identificar a exposição a grupos econômicos;
- integrar informações das áreas comercial, financeira e jurídica;
- agir diante dos primeiros sinais de deterioração.
A principal mensagem do cenário é direta: o momento mais importante para proteger um crédito pode ser justamente antes de ele se transformar em uma dívida judicializada.
Com milhares de empresas recorrendo à recuperação judicial, a saúde financeira de um cliente passou a ser também uma variável estratégica para quem está do outro lado da relação comercial. Afinal, quando uma empresa entra em crise, o impacto não termina no CNPJ que pediu proteção à Justiça — ele pode se espalhar por fornecedores, trabalhadores, bancos, prestadores de serviços e toda a cadeia econômica ao redor.
Por Rodrigo Albuquerque




