Ricardo Noronha: a voz de Brasília que levou o combate à corrupção para as ruas

Por: Redação SOS

Radialista, jornalista, apresentador e ex-deputado federal, Ricardo Noronha transformou a comunicação e a mobilização social em instrumentos de participação política; à frente do Movimento Limpa Brasil, ajudou a organizar atos que marcaram Brasília entre 2015 e 2018

Há personagens que passam pela política. Outros passam pelo rádio e pela televisão. E há aqueles que conseguem transformar a própria capacidade de comunicação em uma forma de mobilização social.

Ricardo Noronha foi um desses personagens.

Radialista desde 1973, jornalista, publicitário, apresentador de televisão e ex-deputado federal pelo Distrito Federal, Noronha construiu uma trajetória profundamente ligada a Brasília e à comunicação. Também ficou conhecido por sua atuação em movimentos de combate à corrupção, especialmente na criação e liderança do Movimento Limpa Brasil, que levou às ruas da capital manifestações relacionadas ao combate à corrupção, ao enfrentamento da impunidade e à defesa de pautas que, naquele período, mobilizaram parcelas expressivas da sociedade brasileira.

Sua história, portanto, não pode ser contada apenas pelos cargos que ocupou. Ela passa também pela capacidade de transformar o microfone em ferramenta de participação cidadã.

Do rádio à política e às ruas

Nascido em Araguaína (TO), em 22 de junho de 1958, Ricardo Noronha chegou a Brasília ainda criança. Aos 15 anos, iniciou a carreira profissional no rádio. Ao longo das décadas, passou por diferentes emissoras e construiu uma trajetória também na televisão, onde apresentou programas jornalísticos e de entretenimento.

Na política, foi deputado federal pelo PMDB-DF entre 1999 e 2000, como suplente, e integrou comissões da Câmara dos Deputados, incluindo a comissão ligada ao combate à violência e a CPI do Avanço e Impunidade do Narcotráfico.

Mas foi anos depois, já consolidado como comunicador, que Noronha passou a ocupar outro espaço no debate público: o das manifestações de rua.

O nascimento do Movimento Limpa Brasil

Em março de 2015, Ricardo Noronha fundou o Movimento Limpa Brasil, organização que passou a atuar em Brasília durante um período de intensa mobilização política nacional. A atuação do movimento foi registrada em diferentes manifestações entre 2015 e 2016, e Noronha aparecia como fundador, presidente ou coordenador da iniciativa, dependendo da fonte e do contexto.

O movimento defendia publicamente pautas de combate à corrupção e à impunidade e participou de atos nacionais ao lado de outras organizações da sociedade civil, como Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Movimento Brasil Contra a Corrupção.

Em março de 2015, por exemplo, o Limpa Brasil participou das manifestações de 15 de março em Brasília. Segundo Noronha, o movimento havia arrecadado cerca de R$ 15 mil, exclusivamente de pessoas físicas, para financiar um caminhão de som e camisetas utilizadas no ato.

Na ocasião, ele descreveu o movimento como uma organização livre, mobilizada pelas redes sociais e sem vínculo com instituições privadas, governamentais ou partidos políticos.

A declaração ajuda a compreender o espírito daquele momento: a internet começava a funcionar como ferramenta decisiva de convocação e organização das manifestações nacionais.

A Esplanada como palco da indignação

Entre 2015 e 2016, a Esplanada dos Ministérios tornou-se um dos principais palcos da crise política brasileira.

Ricardo Noronha esteve entre os organizadores e porta-vozes de atos que reuniram milhares de pessoas e tinham como bandeiras o combate à corrupção, a defesa da Operação Lava Jato e posições favoráveis ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Em 31 de julho de 2016, por exemplo, uma manifestação na Esplanada reuniu cerca de 5 mil pessoas segundo a Polícia Militar, enquanto os organizadores estimavam um público de aproximadamente 10 mil. O Limpa Brasil esteve entre os grupos responsáveis pela mobilização.

Naquele momento, Noronha afirmou que a mobilização não terminaria com o eventual impeachment e que os movimentos deveriam continuar acompanhando e cobrando o governo.

Essa postura revela um aspecto importante de sua atuação: para ele: “a mobilização social deveria continuar para além de uma eleição ou de uma mudança de governo”.

O Limpa Brasil e a pauta contra a corrupção

A atuação do movimento não se restringiu à defesa do impeachment.

O combate à corrupção e à impunidade permaneceu no centro das manifestações. Em atos públicos, Noronha defendia também medidas relacionadas ao fortalecimento da investigação e à continuidade da Operação Lava Jato.

Em 2016, durante uma manifestação em Brasília, ele afirmou que os movimentos defendiam o projeto de iniciativa popular conhecido como “10 Medidas Contra a Corrupção”, proposta apresentada pelo Ministério Público Federal e que mobilizou diferentes segmentos da sociedade naquele período.

Em 2018, o nome de Noronha continuava associado ao debate anticorrupção. Em abril daquele ano, ele participou de uma audiência pública na Câmara dos Deputados destinada a discutir medidas de combate à corrupção e a criação do Dia Nacional de Combate à Corrupção.

A própria Câmara registra oficialmente Ricardo Noronha como fundador e presidente do Movimento Limpa Brasil entre os participantes da audiência.

Uma atuação que também passou pelo debate institucional

A presença de Noronha no Congresso não se limitou ao período em que exerceu mandato parlamentar.

Sua participação na audiência pública de 2018 mostra uma tentativa de levar para dentro das instituições um movimento que nasceu, em grande parte, nas ruas e nas redes sociais.

Naquele encontro, representantes de diferentes movimentos civis discutiram propostas para combater corrupção e impunidade. A Câmara registrou que Noronha apresentou considerações sobre a atuação do Movimento Limpa Brasil.

Esse trânsito entre comunicação, mobilização social e instituições públicas foi uma das características mais marcantes de sua trajetória.

Uma voz alinhada ao sentimento político daquele período

É importante compreender o contexto histórico.

Os movimentos dos quais o Limpa Brasil participou estavam inseridos em uma onda nacional de manifestações predominantemente críticas aos governos do PT, especialmente durante a crise política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Em atos posteriores, o movimento também se posicionou favoravelmente à continuidade da Lava Jato e contra decisões ou figuras que seus integrantes associavam ao que consideravam impunidade.

Assim, a atuação de Noronha não pode ser desvinculada do ambiente político daquele período.

Ao mesmo tempo, a trajetória do comunicador permite uma leitura mais ampla: ele acreditava no poder de mobilização da sociedade civil e utilizou sua experiência de comunicação para estimular a participação política de cidadãos que queriam se manifestar sobre os rumos do país.

O comunicador que acreditava na participação popular

Talvez seja justamente essa característica que melhor ajude a compreender Ricardo Noronha.

Ele conhecia o poder da palavra.

Primeiro diante dos microfones das rádios. Depois diante das câmeras de televisão. Mais tarde, nas redes sociais, nos carros de som e nos grandes atos da Esplanada.

O mesmo comunicador que levava informação e entretenimento aos lares de Brasília passou a levar também sua voz para manifestações públicas.

O SOS Brasília, que marcou parte de sua trajetória profissional, era apresentado por Noronha como um espaço de comunicação direta com a população. Seu perfil profissional e registros da época mostram uma atuação que combinava jornalismo, televisão, política e participação pública.

O legado que permanece

Ricardo Noronha morreu em 9 de outubro de 2020, aos 62 anos. A Câmara dos Deputados registra sua trajetória profissional como jornalista, comunicador e publicitário, além do período em que exerceu mandato parlamentar.

Na despedida, entidades e veículos de comunicação do Distrito Federal destacaram sua trajetória como comunicador e sua presença no debate político da capital. O Jornal de Brasília o descreveu como um comunicador de forte presença no DF, enquanto a Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno destacou seu compromisso com a comunicação local, a ética e a transparência.

O Movimento Limpa Brasil foi uma das últimas expressões mais marcantes dessa trajetória de participação pública.

Entre 2015 e 2018, Ricardo Noronha ajudou a transformar a Esplanada dos Ministérios em um espaço de mobilização política e cidadã, colocando o combate à corrupção e à impunidade no centro de seus discursos e ações.

Ricardo Noronha e a marca de uma geração

É possível concordar ou discordar das posições políticas defendidas por Noronha e pelos movimentos dos quais participou. O fato histórico, porém, permanece: ele foi um dos personagens de Brasília que ajudaram a organizar e dar visibilidade local às mobilizações anticorrupção que marcaram o Brasil na segunda metade da década de 2010.

Seu percurso ajuda também a contar a história de uma época em que milhões de brasileiros voltaram às ruas para discutir corrupção, impunidade, instituições e os rumos da democracia.

Para quem conviveu com Ricardo, entretanto, talvez a lembrança mais forte seja outra: a do comunicador que gostava de estar próximo das pessoas, ouvir opiniões, provocar debates e colocar questões diante do público.

E é justamente aí que permanece sua principal herança.

A ideia de que uma sociedade livre também é uma sociedade que participa, questiona, fiscaliza e não abre mão do direito de cobrar daqueles que exercem o poder.

Ricardo Noronha não foi apenas uma voz diante do microfone. Em determinado momento da história de Brasília, ele colocou essa voz a serviço de uma mobilização que levou milhares de pessoas à Esplanada. Seu legado, hoje, também pertence à memória política e jornalística da capital.

Por Rodrigo Albuquerque

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