MORADORES RESISTEM À CONSTRUÇÃO DE NOVOS CAPS NO DF E OBRA EM TAGUATINGA ESTÁ PARADA

Por: Redação SOS
foto: Divulgação/MPDFT, via G1

Comunidades de Taguatinga e Guará se mobilizam contra a instalação de centros de atenção psicossocial em áreas residenciais. O GDF tem acordo com o Ministério Público para erguer cinco unidades até 2027 e tenta derrubar a segunda pior cobertura do país.

A promessa de ampliar a rede pública de saúde mental do Distrito Federal esbarrou em um obstáculo que não estava no planejamento do governo: a vizinhança. Nas regiões escolhidas para receber os novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), moradores se organizam para impedir as obras, e a resistência já produziu resultado concreto. Em Taguatinga, a construção de uma unidade na QNL 1 voltou a ser paralisada pelo GDF depois de uma sequência de protestos da comunidade.

A mobilização em Taguatinga ganhou formas variadas. Houve manifestação de rua, moradores plantaram árvores nos buracos abertos para os alicerces e a pressão junto à administração regional se somou a uma audiência pública que contou até com ônibus fretado para levar os interessados. Na terça-feira, representantes da comunidade ainda foram recebidos pelo presidente da Câmara Legislativa.

O argumento central dos moradores da QNL 1 é o uso do terreno. Para a comunidade, a área escolhida funciona há mais de 30 anos como espaço de lazer e convivência, com valor afetivo para quem vive na quadra. O morador Bruno de Andrade, de 44 anos, resume a posição do grupo: para ele, áreas ociosas deveriam receber benfeitorias, e não faz sentido instalar um Caps em um espaço que já tem utilidade para a população. Ele também diz temer pelo sossego da região com uma unidade 24 horas perto de residências, escolas e igrejas.

No Guará, o roteiro se repete com outro instrumento. Moradores das Quadras Econômicas Lúcio Costa reuniram 781 assinaturas em um abaixo-assinado contra a construção de um Caps III Álcool e Drogas no local previsto. O documento afirma que a comunidade não é contra o equipamento em si, mas contra o endereço: o terreno seria uma área legítima de convivência e recreação ao ar livre. O texto cita receios com segurança pessoal e patrimonial, aumento do trânsito, quebra do silêncio após as 22h e possível interferência na Reserva Biológica do Guará. Como contraproposta, os moradores sugerem que o espaço receba uma Unidade Básica de Saúde. Parte da vizinhança, porém, contesta a versão: segundo uma moradora ouvida pelo g1, a área pertencia à Secretaria de Educação e nunca funcionou como lazer.

O que o governo diz

Para a subsecretária de Saúde Mental do DF, Fernanda Falcomer, a resistência tem crescido nos últimos meses e mistura preconceito e desinformação. Ela aponta que o próprio nome Caps virou alvo de piada sobre saúde mental na internet e que há confusão sobre o que as unidades fazem. Entre as crenças incorretas mais comuns está a de que os centros fariam internações involuntárias, quando o modelo é justamente o oposto: criados na transição do modelo manicomial, os Caps trabalham com tratamento voluntário, acolhimento e equipe multiprofissional.

Outro equívoco frequente, segundo a gestão, é a associação dos Caps ao Centro Pop, serviço voltado a pessoas em situação de rua. Em nota, a Secretaria de Saúde afirma que as unidades não funcionam como abrigos nem como espaços de segregação e que o cuidado é planejado, com acompanhamento das equipes e articulação com o restante da rede. Falcomer acrescenta que não há dados que relacionem a instalação de um Caps ao aumento da criminalidade e defende o desenho do serviço, pensado para ficar dentro dos bairros, perto de casas, comércio e escolas, justamente para viabilizar a reabilitação psicossocial dos pacientes.

Há também um contraponto real dentro da própria rede. No Gama, um Caps III enfrentou disputa parecida, que chegou ao Ministério Público, antes de ser inaugurado no começo de julho. Quase três meses depois, moradores dizem que a rotina da região seguiu praticamente igual. O motorista Hamilton Barbosa, de 74 anos, conta que não percebeu aumento de roubos nem problemas de segurança e que as árvores do entorno, grande preocupação inicial da comunidade, foram em boa parte preservadas.

Uma rede atrasada

O impasse acontece sobre um histórico pesado. O GDF foi condenado há mais de 15 anos por omissão na rede pública de saúde mental e fechou acordo com o Ministério Público para construir cinco novos Caps até 2027. Duas dessas unidades são do modelo III Álcool e Drogas, com funcionamento 24 horas, exatamente o formato que concentra a maior resistência.

A necessidade não é pequena. O DF tem hoje 19 Caps, índice de 0,54 unidade para cada 100 mil habitantes, segundo o Ministério da Saúde. Em 2025, Brasília ficou com o segundo pior resultado do país, à frente apenas do Amazonas. Nem a inauguração da unidade do Gama foi suficiente para tirar o Distrito Federal dessa posição.

O cronograma oficial prevê a inauguração do Caps do Recanto das Emas no mês que vem. Ceilândia e Taguatinga têm conclusão programada para o ano que vem, enquanto o Guará segue em fase de contratação da obra. Depois desse ciclo, o planejamento da Secretaria de Saúde inclui mais sete unidades entre 2027 e 2029, condicionadas a critérios técnicos, orçamento e disponibilidade de terrenos.

O desafio, agora, é fazer a expansão conviver com a aceitação dos bairros. A experiência do Gama sugere que o temor inicial pode não se confirmar na prática, mas as mobilizações de Taguatinga e do Guará mostram que o governo ainda precisa convencer a vizinhança antes de erguer as paredes.

Por Rodrigo Albuquerque

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