Misticismo Sobrenatural

8 COISAS QUE TALVEZ VOCÊ NÃO SAIBA SOBRE DELÍRIOS MÍSTICOS DE LÍDERES LATINO-AMERICANOS 

Visões de entidades sobrenaturais, convicção de cumprir “missões divinas”, lobby político nos céus e outras peculiaridades de presidentes e ditadores que deixam Gabriel García Márquez no chineloAriel Palacios20/01/2019 – 16:32 / Atualizado em 20/01/2019 – 17:01

O general Jorge Rafael Videla (1925-2013), condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, considerava que cumpria na Presidência argentina uma missão “divina” Foto: -

O general Jorge Rafael Videla (1925-2013), condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, considerava que cumpria na Presidência argentina uma missão “divina” Foto: –

1 –   EL SALVADOR: WI-FI MENTAL COM WASHINGTON 

Um dos casos mais chamativos de um governo sob a égide da superstição é o do general Maximiliano Martínez, ditador de El Salvador entre 1931 e 1944. Martínez teve oito filhos. Um deles teve uma apendicite. Os médicos afirmaram que era necessário fazer uma operação urgente. Mas o ditador vetou. Martinez disse que resolveria tudo por conta própria com as “águas azuis”, isto é, litros de água que haviam estado dentro de garrafas de cor azul muitas horas sob a luz do sol. O menino, agonizando lentamente, morreu. O ditador explicou que precisava se resignar, já que “os médicos invisíveis” não quiseram salvar seu filho.  

O ditador costumava preparar garrafas de água “azul” para distribuir entre os amigos. No entanto, sua crença tornou-se caso de Estado quando ocorreram diversas epidemias e ele ordenou que as doenças fossem combatidas com a água dessas garrafas. No caso de uma onda de sarampo, Martínez ordenou combater à epidemia colocando folhas de cor vermelha embrulhando as luminárias públicas. O ditador também dizia que conversava frequentemente com outros líderes mundiais da época, especialmente Franklin Delano Roosevelt. No entanto, não ficaram registros desse intercâmbio de mensagens, já que, segundo Martínez, ele conversavam por telepatia.  

2 – HONDURAS:  UNGIDO POR DEUS

Durante décadas Honduras teve uma série de presidentes militares (e um punhado de civis) que se alternaram no “Guacamolón” (Abacatão, isto é, o grande abacate), apelido do palácio presidencial. Em 1982 chegou ao poder o general José Efraín Ríos Montt, um pastor da Igreja Pentescostal da Palavra. No dia do golpe militar (que também foi o de sua posse), o general declarou que havia sido “ungido por Deus”. Perante um grupo de jornalistas atônitos, Ríos Montt declarou que “só Deus dá e retira a autoridade”. Segundo ele, sua chegada ao poder havia sido uma decisão do próprio Jesus Cristo. 

Ríos Montt esteve apenas 17 meses no poder. No entanto, seu regime foi tragicamente marcante. Enquanto pregava “amai-vos uns aos outros” nos discursos, ordenava a realização de massacres de grande magnitude. As chacinas de Ríos Montt concentraram-se principalmente em áreas de comunidades indígenas (ordenou a destruição de 400 vilarejos). Por esse motivo, décadas depois, foi condenado na Justiça por “genocídio”. 

O general, pela TV estatal, apresentava um programa chamado “Discursos do domingo”, no qual falava sobre a Bíblia. Ríos Montt dizia aos recrutas do Exército que deveriam manter a castidade e exigia que cada um deles tivesse um exemplar do Novo Testamento, junto com uma edição das Ordenanças do Exército. Na época, seu governo foi chamado ironicamente de “O regime da Bíblia e da metralhadora”.

3 – ARGENTINA: CONVERSAS COM O “PEQUENO JESUS” 

Um dos mais famosos protagonistas da última ditadura militar argentina (1976-83), o capitão Jorge “El Tigre” Acosta — um dos criadores dos “voos da morte” — falava sozinho à noite em delírio místico. Acosta explicava aos colegas (e também aos prisioneiros) que mantinha longas conversas noturnas com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões. “Jesucito”, segundo ele, lhe respondia quem deveria ser submetido a padecimentos e assassinado. Famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos detidos, Acosta também foi um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da Escola de Mecânica da Armada (ESMA).

O chefe máximo do regime militar, o general Jorge Rafael Videla (1976-80), era um asceta religioso. Videla considerava que estava cumprindo uma missão “divina” para proteger os “valores cristãos do mundo ocidental”. Mas, durante seu governo, foram realizados os maiores massacres de civis na Argentina no século 20. Seus homens realizaram truculentas torturas, estupros de jovens civis prisioneiras e sequestro de bebês. Neste ponto o objetivo era evitar que crescessem em famílias que “não defendiam o cristianismo”. Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 500 campos de concentração da ditadura. 

4 – GUATEMALA: O PRESIDENTE DEVOTO DE MINERVA 

A Guatemala teve uma série de presidentes autoritários e corruptos que foram fonte de inspiração para que vários autores escrevessem ficções baseadas em fatos reais. Uma delas é a novela “O senhor Presidente”, publicada em 1946 pelo guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, Prêmio Nobel de 1967. A obra foi baseada no presidente Manuel Estrada Cabrera, presidente de seu país entre 1898 e 1920, conseguindo reeleições consecutivas graças à fraude e às restrições à oposição. 

Uma das medidas mais peculiares de seu governo foi a de tentar implementar o culto a Minerva, a deusa da mitologia greco-romana. O presidente ordenou a construção de diversos templos a Minerva (deusa da sabedoria) por todo o país. Os templos — que tinham que ser pagos e mantidos pelos contribuintes de cada cidade — eram usados para as “Festas Minerválias” pelos estudantes guatemaltecos. Festas sim, mas culto à deusa, necas. Aliás, o primeiro templo desabou, fato que fez que a supersticiosa população acreditasse que era um castigo divino. Isto é, de outros deuses. 

Um dos “milagres” de Minerva a seu mais fiel fanático no século 20 foi a obtenção de 10 milhões de votos nas eleições presidenciais de 1916. Um verdadeiro prodígio dos céus olímpicos, já que o país inteiro tinha apenas 1,4 milhão de habitantes.  

5 – COSTA RICA: DEUS NA COZINHA 

Em 2018, um dos favoritos para a eleição presidencial costa-riquense era o pastor Fabrício Alvarado, que fez campanha contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a inseminação artificial, além de ser contra as aulas de educação sexual nas escolas do ensino médio. Sua mulher, Laura Moscoa, era apresentada como uma profeta religiosa. Ela afirmava que tinha poderes para curar pessoas. Moscoa também declarou que um dia Deus falou diretamente com ela. Mas, na contramão do clássico aparecimento divino em uma igreja ou em seus aposentos (ou ainda em bosques e outros âmbitos da botânica), o Ser Supremo apareceu a Moscoa na cozinha de sua casa, ao lado da geladeira e do micro-ondas, para um chat bilateral. Seu marido enquanto isso, nos comícios, pedia o voto para defender o que denominava de “valores cristãos” contra forças que classificava de “satânicas”. O pastor obteve 39,33% dos votos e perdeu as eleições para o cientista político Carlos Alvarado (tinham o mesmo sobrenome, mas não eram parentes). 

6 – HAITI: O DITADOR QUE SIMULAVA SER UM ESPÍRITO DO VUDU

François Duvalier, um médico que havia ficado famoso combatendo epidemias no Haiti, foi eleito presidente em 1957. Duvalier tinha fama de “humano”, pois havia trabalhado muitos anos nas favelas, onde ganhou o apelido de “Papa Doc” (Papai Doutor). Mas as expectativas de que ele seria um bondoso administrador se esvaíram em pouco tempo. Duvalier instaurou um regime de terror. 

Antes de tomar posse, Duvalier tinha fortes vínculos com o mundo dos rituais de vudu, religião haitiana de origem africana. Mas, ao chegar ao poder, turbinou esse lado: ele se apresentava como um sacerdote do vudu e afirmava que era a corporação física do espírito do país (mas também que havia sido escolhido por Jesus).  

Para impressionar a população supersticiosa, Duvalier se vestia da mesma forma como os haitianos representavam a imagem do sádico Baron Samedi, um dos cruéis “loas” (espíritos) do vudu, com casaca, gravata e cartola. E, como o Baron Samedi não tinha olhos, pois era uma caveira, Duvalier usava óculos escuros

Na categoria sobrenatural, uma das cenas mais sui generis do regime ocorreu quando o conspirador Blucher Philogènes foi morto em um ponto distante do país. O problema era que Papa Doc queria ter conversado com ele antes de sua morte. No entanto, ordenou que a cabeça fosse levada com urgência a Port-au-Prince. O crânio decapitado foi colocado em um balde de gelo, transportado em um caça da força aérea e levado ao aeroporto da capital, onde Duvalier esperava. O ditador pegou o balde, sentou-se no banheiro do aeroporto, colocou a cabeça na sua frente e começou a perguntar-lhe os nomes dos futuros traidores do seu regime.

7 – CHILE: PINOCHET E AS VIRGINAIS MARCAS DAS BALAS

Em 1986, a Frente Patriótica Manuel Rodríguez realizou um atentado contra Pinochet, fazendo uma emboscada ao carro blindado no qual viajava na área de Las Achupallas. O grupo, composto por 20 homens, atacou a caravana com fuzis, metralhadoras e granadas caseiras. O atentado foi um fracasso. Pinochet foi apenas ferido na mão. 

As marcas das balas ficaram no vidro blindado do veículo, formando um desenho que poderia ser “interpretado” como o mapa da Albânia ao lado da Macedônia, ou de um amendoim ao lado do outro, dependendo da imaginação de cada um. Ou um rim em pé e um rim deitado. No entanto, em acesso místico, Pinochet declarou que as marcas das balas do atentado na carroceria do automóvel formavam o perfil da Virgem Maria. Mais especificamente, da Virgem do Carmo (bom, as marcas também poderiam ser dois Barbapapas um ao lado outro).

O suposto milagre divino não salvou cinco dos guarda-costas de Pinochet. O ditador, imediatamente, mandou publicar um panfleto no qual afirmava que ele havia sido salvo e, automaticamente, a Virgem “havia salvo o Chile”. Balas e virgens à parte, Pinochet foi removido do poder em 1989 por intermédio de um plebiscito. Ironias da vida, o ex-ditador morreu em 2006, no 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. 

 8 – VENEZUELA: LOBBY BOLIVARIANO-CELESTIAL 

No dia 13 de março de 2013, oito dias após a morte de Chávez, o mundo se surpreendeu com a eleição de um papa argentino, o cardeal Jorge Bergoglio, que assumiu como pontífice com o nome de Francisco. Horas depois, Maduro afirmou que essa eleição devia-se a Chávez. Segundo Maduro, o falecido líder bolivariano, nem bem desembarcou no Céu, fez um decisivo lobby celestial para a eleição do papa Francisco, um latino-americano.  

“Nós sabemos que o nosso comandante subiu às alturas (o Céu) e que junto com Cristo ele influenciou para que um papa sul-americano fosse eleito”, disse. E arrematou: “Cristo disse a Chávez que chegou a hora da América do Sul”. E, ainda segundo Maduro, Jesus Cristo concluiu com a forma majestática: “Assim nos parece”

Com estas declarações Maduro deu início à transformação da figura de Chávez em um ser “sobrenatural”. Isto é, além do culto ao fundador do chavismo, Maduro incluiu um forte condimento religioso na glorificação do líder morto. Uma espécie de branding sobrenatural-político. 

Maduro voltou à área teológica ao declarar que Chávez, em vida, era Cristo reencarnado, isto é, Cristo teria reencarnado nele durante 58 anos. “O Cristo redentor fez-se carne, fez-se carne, fez-se verdade em Chávez”. Isso gerou ironias em Caracas sobre a eventual candidatura de Maduro a “apóstolo”. Pouco depois, ele mesmo começou a se denominar “apóstolo de Chávez”.  

O chavismo havia criado assim uma espécie de Santíssima Trinidade bolivariana: o Padre seria Simón Bolívar, o Filho seria Chávez e o Espírito Santo, o passarinho que se comunicou com Maduro como Chávez transmutado.  

Fonte/ Revista Época


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