Futuro da mobilidade no DF passa por transporte público e adaptação ao clima, dizem especialistas

Por: Redação SOS
foto: TV Globo/Reprodução - arquivo

Série do g1 reúne projeção de aquecimento, riscos à infraestrutura e propostas para viagens mais curtas e seguras; cenário de 2070 não é temperatura observada hoje.

A mobilidade urbana do Distrito Federal não pode ser planejada como se a chuva intensa e o calor fossem apenas interrupções ocasionais. A terceira reportagem de uma série do g1, publicada nesta segunda-feira (28), apresenta avaliações de especialistas sobre transporte, forma de ocupação da cidade e adaptação climática. A conclusão comum é que o desenho dos deslocamentos e a exposição ao tempo precisam ser tratados em conjunto.

Dados do Laboratório de Sustentabilidade Aplicada à Arquitetura e ao Urbanismo da UnB, citados pelo g1, apontam aumento de 1,85 °C na temperatura média do DF ao longo de 60 anos. O estudo também apresenta cenário de crescimento de 6 °C para 2070. São medidas de naturezas diferentes: a primeira descreve uma evolução observada no período indicado; a segunda é uma projeção futura sujeita às hipóteses do estudo. Não se deve somar esses valores ou descrever o cenário como temperatura atual.

Para o professor de engenharia Rideci Farias, eventos extremos tornam visíveis fragilidades já existentes na rede de transporte. A frase ganha sentido no cotidiano de quem aguarda ônibus sem abrigo adequado, atravessa trechos alagados ou depende de conexão longa entre casa e trabalho. O problema climático não substitui o problema de mobilidade: ele pode ampliá-lo.

Iuri Moura, do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, defende investimento em transporte coletivo capaz de atender bem usuários atuais e atrair outros. Ele cita a integração entre diferentes modais, inclusive bicicletas para ligar bairros a sistemas de maior capacidade. O objetivo não é imaginar que todo trajeto possa ser pedalado, mas reduzir a dependência de uma única forma de viagem e oferecer alternativas em distâncias adequadas.

O especialista também propõe rever o espraiamento urbano, que distancia moradia, trabalho e serviços e prolonga as viagens. Uma ocupação mais compacta em áreas já dotadas de infraestrutura pode diminuir deslocamentos obrigatórios. Esse debate exige atenção a acesso à moradia e distribuição de serviços: adensar sem planejamento não corrige desigualdades por si só.

A arquiteta Liza Andrade, da UnB, destaca soluções baseadas na natureza, como arborização, jardins e corredores ecológicos para ajudar na infiltração da água e no conforto do espaço urbano. Elas precisam dialogar com drenagem, calçadas e operação do transporte. Plantar árvores isoladamente ou pavimentar uma via sem observar para onde a água escoa não responde a toda a cadeia de risco.

O desafio público é traduzir princípios em metas verificáveis: locais mais vulneráveis, investimentos previstos, manutenção, prazos e resultado para os passageiros. Enquanto isso, projeções climáticas devem ser apresentadas com as condições em que foram elaboradas, e os relatos de quem atravessa a cidade hoje devem orientar a escolha dos problemas mais urgentes.

Por Rodrigo Albuquerque

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