“Melhor presente”, diz jovem do DF preso injustamente após reencontrar família

Por: Redação SOS

Lucas recebeu a equipe do Metrópoles na casa da tia, em Ceilândia, próximo ao local onde foi preso, em 20 de setembro de 2017

Preso injustamente por quase três anos no DF, Lucas Moreira de Souza, 26 anos, foi solto na madrugada desta quinta-feira (22/10). Nesta manhã, Lucas pôde rever o filho depois de dois anos, e não segurou a emoção. “A última vez que eu vi meu filho foi em 15 de novembro de 2018. Praticamente perdi a infância dele, porque quando fui preso ele tinha 2 anos. Agora, tem 5”, disse.

Lucas recebeu a equipe do Metrópoles na casa da tia, em Ceilândia, próximo ao local onde foi preso, em 20 de setembro de 2017. O jovem deixou o Complexo Penitenciário da Papuda ainda durante a madrugada, foi a pé até a Rodoviária do Plano Piloto e, de lá, pegou um ônibus para a região administrativa onde morava com a família.

Após posicionamento do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pela liberdade de Lucas, a juíza da Vara de Execuções Penais (VEP) Leila Cury concedeu alvará de soltura para o rapaz, na noite dessa quarta-feira (21/10).

O jovem soltava pipa quando foi abordado por policiais do DF. Na ocasião, ele foi acusado de cometer roubo qualificado e tentativa de latrocínio. Chegou a ser condenado a 67 anos de prisão por um dos crimes dos quais foi erroneamente acusado.

No próximo dia 31, Lucas completa 27 anos e diz que “presente melhor não poderia receber”. “Agora só quero ficar com meu filho, com a minha mãe, com as pessoas que não esqueceram de mim enquanto eu estava naquele lugar.”

“Errar a gente erra muito na vida, mas eu estava preso por algo que não fiz. Perdi muito tempo, perdi a infância do meu filho, senti muita falta dele nesse tempo”, completou.

Após rever a família, Lucas ainda ressaltou a importância do trabalho dos quatro defensores públicos envolvidos no processo – Antônia Carneiro, Jonas Monteiro, Fernando Calmon e Daniel de Oliveira.

“Eu acreditei [na liberdade] quando eles apareceram, porque eu tinha um advogado particular e ele não fez muita coisa. Eu já estava condenado quando eles (Defensoria Pública do DF) foram lá, acreditando em mim, coisa que pouca gente acreditou. Porque pelo fato de você ser negro e morar na periferia, você já é suspeito”, disse.

A condenação de Lucas se deu com base em reconhecimento de vítimas. No entanto, segundo os defensores, as evidências não corroboram que ele tenha participado dos crimes cometidos em Ceilândia.

Quando enfim deixou o presídio nesta madrugada, Lucas não acreditou que aquele momento fosse real. “Eles me liberaram meia-noite. Fui caminhando do Jardim Botânico até a Rodoviária do Plano Piloto a pé. Quando eu saí, parecia que estava sonhando. Fiquei me beliscando no caminho para saber se era verdade”, contou.

O caso

Na noite de 20 de setembro de 2017, dois homens cometeram um roubo em Ceilândia. Os bandidos seguiram em um carro até o Recanto das Emas e praticaram outros crimes ao longo do caminho, entre eles uma tentativa de latrocínio.

À época, informação da polícia do Recanto da Emas detalhava que um dos suspeitos seria manco. A característica do bandido foi passada para os policiais de Ceilândia, que, então, procuraram o suspeito que se encaixasse nessa característica. Lucas foi abordado pelos policiais na manhã do dia seguinte.

O rapaz foi submetido ao reconhecimento de pessoas roubadas em Ceilândia e no Recanto das Emas. As testemunhas de Ceilândia não o reconheceram, mas as vítimas da outra cidade disseram ser ele o responsável pelos crimes.

Um policial acreditou em Lucas e levantou evidências da inocência do jovem. O primeiro deles é que o rapaz não tem a principal característica procurada pelos policiais naquele dia, pois Lucas não é manco.

Além disso, 10 dias depois da prisão, um crime com as mesmas características daqueles praticados em Ceilândia e no Recanto das Emas repetiu-se em Samambaia. Um mês depois, foram presos dois homens, com o mesmo veículo e arma usados nos delitos atribuídos a Lucas. Um dos detidos era manco. Enquanto isso, o jovem permanecia preso.

O Metrópoles entrou em contato com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para comentar as inconsistências na investigação do caso, mas, até a última atualização dessa reportagem, não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.

Fonte: Ana Karolline Rodrigues – Metrópoles

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