Arqueologia dos talentos escondidos

Ter ou desenvolver habilidades especiais em um ambiente tão competitivo quanto o mundo em que vivemos pode representar um diferencial competitivo indispensável para quem deseja ir além da vala comum no contexto social ou profissional.

O grande desafio, no entanto, não é apenas identificar a presença de algum talento, dom ou habilidade potencial presente em nosso ser interior – o que, diga-se para o bem da verdade, deve ser entendido como um componente obrigatório de fábrica que já vem inserido, de forma latente, na estrutura física e emocional de cada ser humano.

De posse dessa informação, fica mais fácil deduzir que, além disso – e mais importante do que apenas reconhecer as próprias habilidades – é fundamental saber o que fazer com elas. Talvez resida aqui o principal motivo de estagnação para a maioria das pessoas que não conseguem se realizar na carreira profissional permanecendo muito aquém dos seus objetivos de vida.

Para melhor elucidar esse cenário, torna-se oportuno distinguir, de forma clara, quais são os níveis de consciência associados ao melhor aproveitamento das potencialidades inerentes a cada indivíduo.

O nível mais elevado – o Máximo Aproveitamento das Potencialidades Individuais – refere-se aos indivíduos que são plenamente conscientes de suas capacidades e não hesitam em fazer uso permanente delas. Não é difícil identificar as pessoas que se enquadram nessa categoria. Normalmente são bastante proativas, não se deixam abater pelas críticas, mantêm-se sempre focadas em seus objetivos e não desperdiçam tempo com conjecturas ou ilações que não levam a lugar algum. Sabem o que querem, reconhecem do que são capazes e aplicam todo o seu potencial visando à realização dos seus sonhos e objetivos.

O nível intermediário – o Médio Aproveitamento das Potencialidades Individuais – se aplica àqueles que, embora sejam conscientes de suas reais possibilidades, acabam se conformando com o trivial. Por confiarem excessivamente na própria capacidade de superação, entendem que estão aptos a darem a volta por cima, caso as coisas saiam dos trilhos. Deixam os acontecimentos correrem por conta própria sem a menor preocupação de dar o direcionamento correto e efetivo aos seus planos e projetos. Aceitam passivamente as interferências externas, mesmo quando elas colocam em risco o próprio sucesso. Sabem o que querem, reconhecem suas habilidades, no entanto não se empenham o suficiente ou não sabem o que fazer para alcançarem suas metas.

Arqueologia. Fonte: Google

O nível que traz maior preocupação é o que podemos denominar de Mínimo Aproveitamento das Potencialidades Individuais. Refere-se às pessoas cuja disposição de reconhecerem seus próprios valores e de lutarem em favor de alguma causa que valha a pena, ainda não aflorou. Tais pessoas mantêm suas expectativas sempre voltadas para a capacidade dos outros e procuram permanecer em ambientes que ofereçam condições favoráveis para pegarem carona no sucesso alheio. O lado bom desse estilo é que pessoas com esse perfil acabam se tornando bastante prestativas e solícitas provando que são capazes de ajudar sempre que demandadas. Mas, se por um lado conseguem ser úteis à realização dos objetivos de terceiros, por outro, se sentem limitadas e impotentes quanto à concretização dos seus próprios objetivos. Para essas pessoas, parece difícil enxergar que, mesmo reconhecendo que a ajuda ao outro tem um valor moral importante e necessário, não se pode ignorar que ajudar a si mesmas é uma estratégia necessária até para poder alcançar as condições ideais para oferecer ajuda, a quem mais necessita, a partir das próprias conquistas. Quanto mais realizada a pessoa se sente, mais possibilidade terá de cooperar com o sucesso coletivo.

Ao fazer essas considerações minhas lembranças repousaram na maravilhosa lição deixada pelo Mestre das Parábolas – Jesus – ao narrar, de modo tão peculiar, a Parábola dos Talentos. Diz Ele: “Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu. O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, saindo, abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor”.

Fica bem evidente ao longo da narrativa que, ao convocar seus colaboradores para tomar conta de seus bens, o patrão reconheceu, em cada um deles, a presença de potencialidades que os tornavam dignos de confiança para a execução da tarefa “segundo a própria capacidade”.

De acordo com a parábola, o que recebeu mais produziu mais. O que recebeu a quantidade intermediária obteve resultado compatível com a expectativa nele depositada, mas o que recebeu menos não foi capaz sequer de fazer o mínimo possível, enterrando de vez a oportunidade de demonstrar suas habilidades e dons para, dessa forma, aumentar o nível de reconhecimento das suas competências perante os demais. 

Trazendo para a realidade de hoje, podemos comparar a busca pelo aperfeiçoamento das habilidades individuais com o trabalho da arqueologia. Imagine quantos tesouros escondidos os pesquisadores encontram soterrados nos diversos sítios arqueológicos espalhados pelo mundo?

De igual modo, podemos dizer que cada um de nós possui riquezas escondidas na mente e na alma. Alguns desses tesouros foram soterrados por pessoas que jogaram uma pá de cal sobre os nossos sonhos e acabaram minando nossa autoestima plantando ideias ou pensamentos negativos a nosso respeito. Outras vezes, fomos sabotados por nós mesmos quando não acreditamos no nosso potencial e nos contentamos apenas em resguardar nossos bens interiores de olhares curiosos que nos espreitam o tempo todo.

Não importa quanto tempo tenha se passado desde que os nossos sonhos foram sepultados. Com a pá da resiliência comecemos hoje mesmo a remover todo o entulho despejado em nossos corações até que sejam totalmente evidenciadas as monumentais riquezas que o Mestre Divino tem confiado a nós, segundo a potencialidade que Ele reconhece em cada um. Façamos valer a pena. Desenterremos nossos talentos!

(Peniel Pacheco)

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