Por Peniel Pacheco*

Quando Nélson Rodrigues cunhou, em uma de suas famosas peças, o inusitado título: “Bonitinha, mas ordinária”, provavelmente ele não estava preocupado em realçar o peso do termo “mas” localizado bem no meio da expressão.
Imagino que sua intenção tenha sido apenas demostrar, em forma de antítese, que a beleza plástica nem sempre anda de mãos dadas com a beleza de caráter, como ficou patente no caso da personagem por ele criada.
Mesmo não sendo o seu propósito, o dramaturgo acabou transformando a conjunção adversativa “mas” na parte mais forte do título da peça. Imaginem se ele tivesse utilizado o “e” no lugar do “mas”? Com toda certeza a expressão “Bonitinha e ordinária”, não teria a mesma sonoridade e acabaria esvaziando o sentido almejado pelo autor.

Corroborando com a terminologia utilizada por Nelson Rodrigues, recordo-me de uma daquelas músicas pegajosas, cujo refrão diz: “Você não vale nada, mas eu gosto de você!”. Neste caso o termo “mas” funciona como uma espécie de salvo conduto com poder de isentar a pessoa querida de eventuais condenações ou cobranças, independentemente do que tenha feito o do que venha a fazer.
A conjunção como texto
Mas, para ir direto ao assunto, é importante relembrar o valor gramatical dos termos classificados como conjunções adversativas. Trata-se do uso de determinadas palavras invariáveis, tais como: mas, porém, contudo, entretanto, todavia, que têm a função de ligar orações ou termos de mesmo valor gramatical, mas que denotam sentido de oposição entre si. Exemplo: “Faz sol, mas está frio!”
Vale destacar que a palavra “conjunção” é derivada da expressão latina conjunctio, cujo prefixo con significa “junto com” e o radical junct – emprestado da palavra jungere – significa literalmente “estar sob o jugo”.
O resultado obtido com a fusão dos dois termos equivale a uma metáfora muito interessante, na qual se verifica que duas orações ou termos devem permanecer ligados um ao outro como se estivessem sob o mesmo jugo, isto é, como uma parelha de animais utilizada para puxar o arado ou como meio de transporte.
No caso específico da conjunção adversativa, não seria fora de propósito relacionar essa metáfora com a expressão bíblica do “jugo desigual”. Isto porque, tipificando a utilização de animais de diferentes espécies (o jumento e o boi, por exemplo) postos debaixo da mesma canga, palavras ou orações com sentidos opostos são colocadas lado a lado no texto com o propósito específico de realçar o antagonismo entre elas.
A conjunção como contexto
Tive um professor de português que gostava de abusar no uso de conjunções adversativas quando queria demonstrar seu desapreço às nossas derrapadas semânticas. Sempre que um aluno falava alguma bobagem, ele retrucava da seguinte maneira: “concordo totalmente com você, mas, contudo, porém, todavia, entretanto…” Hoje entendo claramente que, por meio desse jeito descontraído, ele conseguia contestar, com a maior veemência possível, nossas agressões desferidas contra a língua pátria, contudo sem perder o bom humor.
Essa é uma das razões que fazem da linguagem humana algo fantástico! Até por meio de palavras – que isoladamente poderiam parecer inexpressivas – torna-se possível realçar sua contundência, desde que estejam adequadamente associadas a determinados conceitos ou ideias.
A verdade é que palavras certas – pronunciadas nos lugares e nas horas certas – carregam consigo um tremendo poder revelador! Elas traduzem não apenas o que pensamos naquele momento específico, mas, também, possuem o condão de demonstrar quem nós somos interiormente, pois o nosso modo de falar sempre estará conectado com o nosso modo de pensar – “a boca fala do que está cheio o coração”.
Em seus Provérbios, o sábio Salomão já dizia: “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”. Diante desta sensata recomendação, somos levados a concordar que o silêncio é mais sábio do que a fala precipitada.
É verdade também que, no processo de comunicação, as palavras podem sofrer deformações ou serem mal interpretadas, dependendo do lugar e da forma como são pronunciadas.
A entonação, por exemplo, é um ingrediente importantíssimo para ajudar na compreensão do que se pretende comunicar. Ela funciona como um tempero que dá sabor ao que se diz. Palavras ditas com uma entonação errada podem gerar inúmeros dissabores e causar grande desconforto, tanto para quem as pronuncia, quanto para os que as recepcionam.
A conjunção como pretexto
Trazendo para o contexto atual, convém considerar que o ambiente onde as conjunções adversativas ganham maior destaque é no território da política. Quantas “justificativas” são apresentadas como meros pretextos escondidos por trás de tais terminologias? “Desejo governar, mas a oposição não deixa”. “Eu prometi que ia conceder o aumento, contudo não disponho de recursos orçamentários para tal”. “Eu dou carta branca, entretanto não abro mão do poder de veto”. “Eu reconheço que falo palavrões, porém não vou mudar meu jeito de ser”. “Tais nomeações não estavam nos meus planos, todavia preciso ampliar minha base de sustentação política”.
Mesmo nos casos onde a conjunção adversativa ganha um caráter evidentemente falacioso – notadamente em face da clara tentativa de dar uma aparência de normalidade às eventuais contradições ente o discurso e a prática – percebe-se claramente o seu poder de convencimento. O “mas”, o “contudo”, o “entretanto”, o “porém” e o “todavia” soam como música aos ouvidos daqueles que precisam apenas de uma conjunção adversativa para avalizar atitudes como estas, principalmente por acharem que tais artifícios são inerentes à própria atividade política, como se os fins pudessem justificar os meios.
Apesar do seu poder, não se justifica, em hipótese alguma, o uso das conjunções adversativas como máscaras para camuflar as fraquezas humanas ou como elemento de relativização de valores e princípios que são fundamentais para edificação de uma sociedade calcada na verdade.
As palavras – sejam elas quais forem – fluem de nós como águas que jorram da fonte revelando sua essência e qualidade. Não é por outra razão que o Mestre dos mestres advertiu aos escribas e fariseus dizendo: “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado”.
Submetidas ao crivo da suprema sensatez, tudo o que dissermos será utilizado contra nós no tribunal da consciência universal. E, quando isto acontecer, não haverá conjunção adversativa que nos livre das consequências advindas das palavras por nós semeadas ao longo da nossa existência: “O que o homem semear, isto também ceifará”.
*Peniel Pacheco é teólogo, pastor, ex-deputado distrital e colunista convidado SOS BRASÍLIA.

Para reflexão. Frase de Jean Molière



