Por: Peniel Pacheco
Lidar com crianças é sempre uma tarefa desafiadora. Tenho quatro netos e, com muita frequência, fico observando meus filhos tentando administrar as pequenas crises que surgem no dia a dia envolvendo os pequeninos.
Quase sempre os pais se saem muito bem, pois a convivência diária lhes permite conhecer melhor o temperamento e as manias típicas de cada filho. Mas, há ocasiões em que o socorro dos mais experientes passa a ser recepcionado com um sonoro “bem-vindo!”
Por mais que os pais sejam escolados em gestão emocional, sempre fica uma ou outra lacuna desguarnecida quando se trata de adotar a medida mais eficaz para pôr um ponto final em alguma birrinha ou superar o mau humor infantil. É nessas horas que a psicologia natural dos avós entra em cena.
Ocorre que a criança depende, mais intensamente do que os adultos, do processo estímulo-resposta para configurar sua mente nas ocasiões em que se requer alguma tomada de decisão da parte dela.
Levando em consideração que o universo cognitivo infantil ainda está se consolidando, as informações internas nem sempre são suficientes para embasar suas escolhas de forma segura e pacífica. Surge, então, a necessidade de alguma ajudinha externa para promover os estímulos necessários visando à facilitação de todo o processo.
Tais estímulos podem vir em forma de brincadeiras, musiquinhas, surpresas ou por meio dos insubstituíveis mimos emocionais. O que importa é que a estratégia seja capaz de promover a mudança de foco dos elementos causadores do bloqueio mental, para uma nova perspectiva mais animadora e atraente. Não tem como dar errado.
Com o passar do tempo, no entanto, as pessoas tendem a se tornarem menos abertas aos pequenos “truques” que fizeram tanto sucesso no período da infância. Como adultos, julgamo-nos autossuficientes para lidar com as nossas próprias crises existenciais e passamos a ignorar completamente os sinais de estímulos que podem se esconder por trás de pequenos gestos como um sorriso, um afago, uma palavra de encorajamento ou, até mesmo, de um simples abraço.
Quase sempre estamos focados demais nas preocupações do dia a dia e não temos olhos para notar os encantos que nos rodeiam por todos os lados. Em horas assim, precisamos de alguém que nos ajude a desviar o olhar das coisas que nos causam ansiedade e inquietação, para nos fazer enxergar novas perspectivas de vida mais animadoras e relevantes.
Isso nos remete às palavras sempre sábias do Mestre dos mestres que encantava seus ouvintes com inesquecíveis mimos emocionais. Assim dizia Ele em seu memorável Sermão do Monte: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.”
Esse maravilhoso ensino tem inspirado milhões de pessoas ao redor do mundo, no sentido de se colocarem mais atentas, para perceberem o divino cuidado que se manifesta em forma de mimos recolhidos dos encantadores exemplos da natureza. Não foi por outro motivo que o escritor Érico Veríssimo, ao nomear uma de suas magníficas obras, adotou o sugestivo título: Olhai os lírios do campo.
À semelhança das crianças, muitas vezes precisamos desviar nossa atenção dos efeitos colaterais provocados pela preocupação excessiva para focarmos nossos pensamentos em temas que renovem nosso estado de ânimo conduzindo-nos de volta ao equilíbrio emocional baseado na confiança e na firmeza de propósito.
Li, certa vez, em uma estampa de camiseta, a seguinte frase: “Não conte para Deus o tamanho dos seus problemas, mas conte para o seus problemas o tamanho do seu Deus”. É essa capacidade de acreditar em algo maior do que as suas próprias limitações que faz com que a criança ignore a dimensão dos riscos e das ameaças e passe a confiar inteiramente no cuidado dos pais (ou avós), pois sabe que o poder de acolhimento é sempre maior do que os perigos à sua volta. Basta um gesto de mão, uma palavra de estímulo ou mesmo um simples olhar para que o pequenino abra um largo sorriso e corra para os braços acolhedores do pai ou da mãe, feliz da vida.
Isso nos ensina que, no lugar de relutar, angustiar-se e perder a calma, é melhor respirar fundo – para recobrar a serenidade – e receber de bom grado os mimos especiais do Eterno Pai sobejamente distribuídos àqueles que são capazes de trocar os dissabores da vida pelas dádivas divinas reveladas nas obras da criação. Do mesmo modo como Deus cuida das aves do céu e dos lírios do campo, Ele nunca nos abandona e estará sempre de braços abertos para nos acolher com amor inigualável. Pode haver um mimo mais estimulante do que este?



