Ouvir com os olhos

                                                 

Já ouviu a frase “comer com os olhos”? Pois bem. Está comprovado que a simples imagem de um prato primorosamente arranjado é capaz de encher os olhos do observador e aguçar o apetite até mesmo quando não se está tão faminto. Isto prova que, embora pareça absurdo, é possível, sim, ouvir com os olhos.  Afinal, já dizia Confúcio que “uma imagem vale mais que mil palavras” e os cardápios dos restaurantes são a prova viva dessa realidade.

Desde os remotos tempos das inscrições rupestres, registradas nas paredes de cavernas milenares, passando pelos hieróglifos, desenhados nas tumbas e palácios do antigo Egito, até a invenção da escrita cuneiforme pelos povos mesopotâmios que o ser humano tem sido capaz de ouvir com os olhos. Símbolos marcados em pedras, papiros, pergaminhos ou tabuinhas de argila ainda hoje ecoam, em alto e bom som, perante os olhos atentos de hábeis intérpretes da história da humanidade.

O que dizer das tábuas da Lei recebidas por Moisés? Das famosas esculturas gregas? Das pinturas e bustos da idade média? Michelangelo parece ter ficado tão encantado com o resultado de uma de suas famosas obras, que – em um gesto mais que inusitado – suplica à estátua recém-concluída: “Fala, Moisés!”

Não se pode esquecer a invenção da fotografia, que revolucionou a comunicação humana ao permitir, por meio de estranhas geringonças apelidadas de câmera escura, a captação e a fixação de imagens em placas especiais banhadas com iodeto de prata que, no início, eram transplantadas para um tipo de papiro e, mais tarde, para o papel fotográfico.  

Entretanto, o grande marco da linguagem não verbal talvez tenha sido o cinema mudo. Cenas retratando o cotidiano humano arrebatavam milhares de espectadores, levando-os do riso ao pranto, diante das surpreendentes imagens em movimento refletidas na telona.

Mas, o maior e mais impactante mensageiro visual de todos os tempos é o exemplo. Não é por outro motivo que a citação – atribuída a Confúcio – soa ainda hoje com voz altissonante: “A palavra convence. O exemplo arrasta”.

Nada é mais convincente do que a atitude. Nossas ações se transformam em eloquentes pronunciamentos quando o que fazemos está em perfeita consonância com aquilo em que acreditamos.

Talvez não exista nada mais repulsivo no comportamento humano do que a hipocrisia. Não foi por outro motivo que o Mestre Jesus advertiu severamente aos fariseus acerca da falta de coerência entre o falar e o fazer. O descaramento de ordenarem seus seguidores a fazerem coisas que eles mesmos não seguiam fez com que o Divino Mestre os tachasse de “sepulcros caiados”, tamanha a prepotência e arrogância baseadas unicamente na aparência.

Infelizmente encontramos na sociedade moderna tristes exemplos desse mesmo mal. Pessoas que deveriam dar o exemplo de boas práticas e de conduta ilibada perante os seus concidadãos acabam se tornando modelos negativos contribuindo, dessa forma, para reforçar ainda mais o infame discurso do tipo “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.

Não me esqueço de uma mensagem – que me foi encaminhada por um amigo – na qual o pai adverte o filho, que o acompanha em uma caminhada atravessando um pântano: “Veja lá por onde anda!” Ao que o filho retruca: “Veja o senhor!” Um tanto desconcertado o pai reage: “Como assim?” Calmamente o filho explica: “É que eu coloco o meu pé exatamente no lugar onde o senhor acabou de pisar.”

Nossos olhos têm uma “audição” tremendamente aguçada. Eles são capazes de captar até mesmo os mínimos ruídos destoantes nas nossas linguagens silenciosas. Eles são muito sensíveis a qualquer vibração estranha que possa causar algum tipo de interferência em nossa percepção sensorial. Tal qual um sonar, os olhos rastreiam as reverberações – desde as mais graves até as mais agudas – refletidas na vida das pessoas que nos cercam.   

Do mesmo modo como somos capazes de lançar olhares auscultadores sobre os comportamentos alheios, nós também somos submetidos aos mesmos critérios de análise quando externamos nossas vozes interiores por meio dos nossos modos de agir.

Cada vez que ocorre algum descompasso entre o nosso falar e o nosso fazer, soa um alarme estridente na alma de cada circunstante. Impactados pelo ruído ensurdecedor, causado pelas sirenes comportamentais, aqueles que nos ouvem com olhos bem arregalados não conseguem disfarçar suas perplexidades. Por mais que tentem ser discretos ou indiferentes, é simplesmente impossível não perceber a mensagem estampada em seus olhares atônitos: “Suas atitudes falam tão alto, que eu não consigo ouvir suas palavras.”

Quem tem olhos para ouvir, ouça o que os nossos atos têm a dizer!

Peniel Pacheco

COMPARTILHE AGORA:

Leia também