
Trocar letras na hora de escrever ou pronunciar determinadas palavras é um dos sinais característicos de um transtorno de aprendizagem chamado dislexia. De acordo com estudos divulgados pela Associação Brasileira de Dislexia, esse transtorno atinge cerca de 5% a 17% da população mundial. Nota-se, portanto, que não se trata de um problema tão raro ou inexpressivo.
Não são poucas as crianças ou, até mesmo adultos, que enfrentam dificuldades na hora de escrever. Por mais impressionante que possa parecer, nem mesmo o ex-ministro da educação ficou isento de cometer erros crassos, como o de escrever, em uma mensagem no twitter, a palavra “imprecionante” com “c”. Apesar de ter deletado a mensagem o mais rápido possível, o print acabou viralizando nas redes sociais.

Lembro-me de um post – que também viralizou nas redes – dando conta de uma diarista que, na pressa de organizar os objetos após a limpeza de uma estante, teria mudado a posição dos cubos com as letras D-R-E-A-M para outra formação que, além de desagradável, transmitia um sentido totalmente oposto: M-E-R-D-A. Isso demonstra que o uso excessivo de estrangeirismo tem os seus efeitos colaterais – aparece sempre alguém menos avisado que acaba transformando o sonho em algo completamente desprezível e ou mesmo repugnante!
Mas eu realmente pretendo chamar atenção é para outro tipo de distúrbio causado por ferramentas de correção automática de texto em programas ou aplicativos de computador e de celular. Tais instrumentos se acham no direito de “corrigir” o que a gente digita baseando-se unicamente nos recursos da chamada inteligência artificial.
Quem nunca foi vítima desse tipo de dislexia?
Eu já perdi as contas das vezes em que fui aviltado pelo tal corretor de texto. Acho até que o meu nome é o campeão disparado de alterações indesejáveis. As expressões menos comprometedoras, por ele utilizadas, são Genial Pacheco, Pena, Penafiel, Painel, Pinel… enfim uma infinidade de outras combinações sistematicamente “corrigidas” sem prévio consentimento do redator do texto – uma verdadeira loucura!
O caso mais emblemático, no entanto, ocorreu quando uma amiga me convidou para ir, juntamente com minha mulher, a um churrasco de aniversário. Desejando confirmar se eu estaria a caminho, ela postou no grupo de amigos: “E aí, Pen… [órgão genital masculino], você está chegando?” Profundamente constrangido, limitei-me a responder: “Ambos estamos a caminho.” (Rsrs)
A substituição automática de letras pode até nos proteger do cometimento de erros primários nas trocas de mensagens com parentes, amigos ou colegas de trabalho, mas há casos em que ela pode provocar muitos dissabores incluindo o rompimento da amizade ou mesmo decretando o fim de um relacionamento.
Pense na reação da namorada ao receber do seu querido uma mensagem de felicitações de aniversário que, no lugar de desejar “Que Deus ilumine sua vida!” se converte em “Que Deus elimine sua vida!”
O que você acha que pode acontecer quando a pretendente a namorada de certo rapaz, na boa intenção de estreitar a amizade com a futura sogra – cujo nome é Diana – acaba sendo sabotada pelo corretor de texto que altera o nome dela para Diaba?
Recombinar letras formando novas palavras pode se tornar um exercício bem interessante, pois estimula a criatividade e ajuda a aprimorar o vocabulário. A palavra L-A-M-A, por exemplo, pode ser transformada em A-L-M-A. Roma pode ser convertida em amor. O termo “espírito de porco” – muito utilizado para rotular pessoas arruaceiras – pode ser alterado para “espírito de corpo”.
Outras formas divertidas de jogar com as palavras invertendo a posição das sílabas ou das letras são os anagramas e os palíndromos. Os exemplos mais comuns dessas práticas educativas podem ser confirmados fazendo-se a inversão dos fonemas contidos nas seguintes frases: “Natércia, de Caterina” ou “Célia, de Alice”. O melhor deles é a leitura invertida da clássica expressão: “Roma me tem amor”.
Por outro lado, há casos em que as alterações não são nem um pouco recomendáveis. É o que ocorre com a célebre advertência contida no livro bíblico do Apocalipse. Preocupado em preservar a originalidade do texto, João – o autor do livro – faz uma duríssima advertência quanto ao surgimento de eventuais mudanças que poderiam adulterar a mensagem profética: “Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro.”
O próprio Cristo, em seu inesquecível Sermão do Monte, corrobora com a ideia da infalibilidade de sua mensagem. Diz Ele: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.”
É inexorável que a dislexia ortográfica seja adequadamente tratada visando ao pleno desenvolvimento cognitivo com a consequente qualidade de vida dos disléxicos. Além disso, é preciso prevenir a ocorrência da – por mim denominada – dislexia cibernética, cujos transtornos são muitas vezes irreparáveis, como já demonstrados.
Entretanto, o mais importante de tudo é não permitir que nos transformemos em uma espécie de corretor automático das palavras contidas nas profecias bíblicas, as quais cada leitor se dá ao luxo de ler e entender a mensagem a seu bel-prazer, sem levar em consideração que a autoridade suprema para lançar luz sobre o texto bíblico é o seu próprio contexto aliado às passagens paralelas. Ou seja, a Bíblia interpreta a própria Bíblia. O que passar disso pode ser perfeitamente enquadrado em outro tipo de dislexia: a espiritual.
Ler o texto bíblico de trás para frente ou alterar as palavras neles contidas podem provocar graves efeitos colaterais, como a quebra da confiança na mensagem pura e simples do Evangelho além do comprometimento da verdadeira espiritualidade que fatalmente culminará no distanciamento cada vez maior entre as criaturas humanas e o seu Criador.
(Peniel Pacheco)



