
O tic-tac do relógio diz alguma coisa? Penso que sim! Sua “voz” – aparentemente monótona e repetitiva – tem muito a nos dizer sobre a espera ansiosa, sobre o corre-corre da vida, sobre o valor do tempo marcado nos taxímetros da existência, sobre o esforço do atleta para quebrar o recorde, sobre a agenda de compromissos que não espera. Enfim, tem tudo a ver com a história de todos nós, desde os primeiros segundos até os últimos minutos.
Por que o tempo pode ser considerado como algo tão precioso?
O tempo é um patrimônio. Saber utilizá-lo pode ser a diferença entre a riqueza e a pobreza de espírito. Entre a felicidade e o eterno descontentamento consigo mesmo. Entre a saúde emocional e o desespero existencial. Ou seja, o bom uso do tempo é a verdadeira condição para que se possa realmente saber viver – o que acaba tendo tudo a ver com a nossa própria capacidade de saber morrer.
O tempo é um dom divino. Por isso ele é tão democrático. Ele não discrimina, nem privilegia. Não tem nada a ver com a meritocracia. Todo mundo tem as mesmas 24 horas depositadas a cada dia em suas respectivas contas-correntes da existência. A diferença é que ele não é cumulativo. O tempo não gasto não gera dividendos. Ao contrário, sua não utilização representa um tremendo desperdício e um irrecuperável prejuízo, pois impacta negativamente o progresso de toda a humanidade além de restringir a capacidade de cada um aprender a viver sabiamente como pessoa delimitada no tempo. Em outras palavras, a perda de tempo é um verdadeiro atraso de vida.
Qual é a mensagem do tempo?
O tempo tem voz ativa. A cada instante, ele tem algo a dizer sobre o universo, sobre a vida, sobre a natureza, sobre a história e, especialmente, sobre nós mesmos. Ele diz que somos parte de algo muito maior do que podemos supor ou imaginar.
Por estarmos presos no tempo, precisamos aprender a conviver com os limites que nos são impostos pelo próprio tempo. Mas, por outro lado, não há como ignorarmos que existe tempo antes, depois e além de nós. O que significa que somos apenas uma reta – com um ponto de partida e outro de chegada – dentro da eterna linha do tempo.
Nossas ideias, nossas criações, nossas palavras, nossas realizações, nossos erros e acertos, nossos sucessos e fracassos se entrelaçam com os fatos e acontecimentos presentes em todo o universo numa verdadeira simbiose que corrobora o tempo todo para a gestação da história universal que é divinamente orientada para atender ao Supremo Propósito da Criação.
Presume-se, portanto, que a voz do tempo é a voz do próprio Criador. Por meio dela somos compelidos a contribuir para que a vida humana tenha um sentido, para que o tempo de existência de cada um de nós seja um complemento indispensável à consolidação do Plano Divino. Isso faz com que a mão do tempo seja percebida por meio de nossas ações, a voz do tempo seja ouvida por meio das nossas palavras. Faz, também, com que o propósito inerente ao tempo seja o mesmo propósito que nos move em direção à consolidação do nosso próprio ser, o que, em última análise, terá o poder de contribuir decisivamente para a construção de um mundo melhor com a participação direta de todos aqueles que aprenderem a discernir a voz do tempo.
Mas, a quem se destina esse tão decantado mundo melhor?
Destina-se a nós mesmos. Se levarmos em consideração que o verdadeiro sabor da vida não está no tempo gasto em competições, disputas, concorrências, discórdias, contendas e pelejas entre irmãos de jornada, naturalmente chegaremos à conclusão de que a conquista do mundo melhor passa pela busca incessante da concórdia, da harmonia e da fraternidade humana, entendidas como pressupostos básicos de que não fomos criados para o egocentrismo – que conduz à auto-aniquilação –, mas para investir o nosso tempo em favor do sucesso e do progresso coletivo, o que, ao final das contas, tem o poder de transformar cada um de nós em uma parte indispensável de todos nós.
Desse modo, falar em respeito ao próximo, consideração mútua, cooperação e coexistência é fazer coro com a voz do divino Mestre que ecoa ainda hoje em todo o universo, dizendo: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós” (João 17.21). Isto quer dizer que nós somos frutos uns dos outros. Aqueles que nos antecederam, deixaram legado. Aqueles que convivem hoje conosco, são partícipes da nossa história de vida e aqueles que vierem depois serão, de alguma forma, impactados pelo que fomos capazes de construir ao longo da nossa jornada.
Qualquer discurso contrário à lógica da coletividade humana estará na contramão das melhores práticas ensinadas pelo Mestre Jesus. Mais do que nunca, é hora de levarmos a efeito as maravilhosas narrativas da oralidade divina tão maravilhosamente evidenciadas na voz do tempo.
(Peniel Pacheco)



