“QUER UM CONSELHO?”

Por: Redação SOS

Quantas vezes nos perguntam – nossos próximos, preocupados –
Se queremos um conselho para, de problemas, nos afastarmos?
Os tons das vozes solidárias revestem-se de ares professorais,
Dando-nos a impressão de que delas virão sugestões especiais
E de que, daquelas bocas, sairão lições produzidas por vasta experiência
Emanadas por quem, sobre o assunto, são conhecedores por excelência.

Ouvimos a tudo em silêncio, atentamente, em mera atitude de consideração,
Para confirmarmos, tão somente, que o conselho afrontará nossa convicção.
Isto porque o fato de sermos interrompidos pela oferta inesperada
Sinaliza que contrariamos o modo de pensar do nosso camarada.
A dadivosa fala do solene interlocutor, precisa, firme e impecável,
Vem, quase sempre, desagregada do exemplo de vida inafastável.

Apesar desta dissociação infame,
Há quem, por conselhos, clame.
Nem sempre – diga-se ao desprezo, estes devem ser relegados.
A sintonia entre o falar e o agir torna-os bons e abençoados.

Portanto, há prós e contras a serem atenciosamente avaliados
Por quem pretende conselhos dar ou receber,
Advindos de grandes pensadores – secularmente consagrados –
Para a melhor opção, com ponderação, escolher.
Parafraseados, seus ensinamentos apregoam o seguinte
Para quem se dispõe a ser conselheiro ou mero ouvinte:

Segundo Francis Bacon, aquele que dá bons conselhos, constrói com uma das mãos.
O que, além de conselhos, dá exemplo, com as duas mãos promove a construção;
E o que, com uma, dá boa admoestação a alguém, e, com outra, mau exemplo,
O que construiu, logo é destruído e nada terá feito. Desperdiçou todo o seu tempo.

Para François La Rochefoucauld nada é dado tão generosamente
Como conselhos sobre tudo, a todos e de forma inconsequente.
Percepção acompanhada pelo Marquês de Maricá, escritor e pensador brasileiro,
Para quem os homens são pródigos em conselhos, como avaros do seu dinheiro.
Por isso, Benjamim Franklin ensina a tomar conselhos com o vinho;
Mas, a decisões, estas, com a água e mais nada; sóbrio e sozinho…
Até porque William Osler expôs grande verdade – que em nada é absurda:
Para bons ou maus conselhos, normalmente, o ouvido humano é surdo.
Assim o é porque uma grama de exemplos vale muito mais, há que se falar,
Do que uma tonelada de conselhos, segundo conhecido provérbio popular.
Muitas palavras não indicam muita sabedoria – explica Tales de Mileto,
E um saber múltiplo, absolutamente, não a ensina – leciona Heráclito.
O mesmo ouvido, porém, é ávido, segundo Shakespeare, por exaltações,
Sorvidas por ele, até a última gota, sem receios ou quaisquer restrições.

Entretanto, os próprios Shakespeare e Osler não os condenam por completo – o que é uma revelação –
Se vierem para apoiar as próprias convicções e não provocarem alteração de já formada opinião.
Mas, se forem recebidos para promover mudança nos rumos, que saiba o aconselhado:
A sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças – razão para andar bem acompanhado.
Homero a isto abona ao lecionar que um amigo sensato é um bem muito precioso.
E Marcus Tullius Cícero recomenda a prudência como comportamento desejoso,
Para que se possa distinguir o que se quer, do que convém ser evitado e tirado da mente.
Portanto – diz Shakespeare – a desconfiança é farol que guia com segurança o homem prudente,
Nisto acompanhado por Gracián y Morales, para quem o silêncio cauteloso é o refúgio da sensatez.
Muitos recebem conselhos, mas só os sensatos se beneficiam deles, instrui Públio Sírio, por sua vez.
Porém – cuidado! – quando a paixão entra pela porta principal, mudam-se os rumos.
Segundo Thomas Fuller, ela faz a sensatez fugir; escapar pelas portas dos fundos.

Para Aristóteles, vigiar é o segredo. O ignorante afirma; o sábio duvida; e o sensato reflete.
Contudo, o limite extremo da sensatez é o que se batiza de loucura – Jean Cocteau adverte.
Melhor, então, aprender com Vincent Van Gogh e com sua preciosa ponderação:
Que você tenha sensatez; paciência para as dificuldades; e, para as escolhas, visão.
Também: delicadeza para as palavras e coragem para todas as provações que advirão.

A pura e simples negação de conselhos não parece ser atitude sensata,
É bíblico que o sábio aceita a instrução e o tolo nunca julga estar errado.
Napoleão Bonaparte revela que, para alcançar o êxito, deve-se agir alternadamente,
Variando, segundo as circunstâncias, entre o agir com audácia e o ser sensato e prudente.

A verdade – nos tranquiliza Epicuro – é que o homem sensato não evita, como se pensa, o prazer.
Por isso, quando finalmente as circunstâncias o obrigam a deixar a vida e ao eterno conhecer,
Ele não se comporta como se esta ainda lhe devesse algo para a suprema existência,
Eis que viveu bem, de corpo alma e mente, de forma plena, sem perder a essência.

Com estas variadas e, decerto, importantes considerações,
Conselheiros e ouvintes devem tirar salutares conclusões,
Para que ofereçam ou recebam aconselhamento com sobriedade e ponderação.
Aqueles, falando por ações. E estes, ouvindo sabiamente. Assim, tolos jamais serão…

FLÁVIO NORONHA

28-07-2020

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