Ontem à noite, antes de deitar-me, deitei-me sobre a empreitada de hoje. Após tudo pronto, sem dormir no ponto, fui dormir. Ao apagar da vela, velei para, intimorato e intemerato, cedo despertar do sono, ao primeiro despertar do despertador e ao despertar do sol; acordar da sonolência; acordar para o que viria; e acordar com meus cordatos amigos sobre os últimos detalhes da caçada avançada.
Enfim, acordei com o pé direito, o mesmo que ontem me deixou doido de tão doído, moído que foi pelos percalços de, descalço, pisar em falso sobre piso nada liso.
Houve luz. Ouvi a matilha a ladrar. Da mantilha desenrolei-me e, lá fora, dei um grosso osso a cada labrador ladrador. Atendi também à irresistível intimação do irresistível pequinês de estimação, o qual, apesar da sua pequenez, tomou, de plano e com planos, a frente dos demais animais, de fronte à fonte do jardim, mostrando-se presente, à espera de seu presente.
De volta à casa, na porta com a qual deparei, reparei palavras sem reparos a merecer, nela apostas como antiga aposta de que naquele lugar, em primeiro lugar, teria lugar um “Lar, doce lar”.
Aquela expressão causou-me boa impressão. Acertando-me na veia, veio-me à mente letra de linda música, a qual, ao pé da letra e com todas as letras, para mim é um veio de ouro, posto que me faz feliz.
Fiz uma pausa por boa causa e num canto da sala iniciei o meu canto. Minha mente não mente sobre o que gosto e o meu gosto deixa a todos evidente que aquela melodia diferente, sem melódia interferente, é semente que tem o dom de o que é bom em mim fazer fluir pelo cantar, e de me encantar pelo prazer de dela fruir.
Cantar é contar um conto musicadamente. É a recriação de momentos de recreação. É o poder mostrar o poder que se tem de, sobretudo, poder sobre tudo entender.
De alma lavada, enlevada pelo encanto do conto cantado, troquei de roupa. Botei calça destinta, bacana; calcei bota distinta, de bacana; investi em vistosa camisa e a vesti.
Vivida e vívida, minha esposa esposou reação desalentadora ao me vir vindo do quarto. Em verbo rasgado, me mangou com uma manga na mão porque a manga direita da camisa que eu vestia estava rasgada.
Tratei como mancada a mangada. Como uma desfeita pelo tecido desfeito. Indolente pelo insolente destrato, pensei até em distrato da nossa união.
Poderia ela guardar a língua e cuidar de mim ou guardar a camisa e cuidar do seu conserto, quiçá ouvindo um concerto. Também, poderia fazer uma perícia na veste e, até para um teste, coser o rasgo com a mesma perícia com que sabe cozer o rango.
Meu coração caminhou em direção à pacificação, enquanto caminhei pela copa, a caminho de uma bolsa leve, a qual preparei, com todo o meu preparo, de forma precisa, para nela levar tudo o que preciso para caminho do mato, onde caço e mato, para que a fome não me mate, e para de medo eu não morrer.
Parti quando parte do céu me deu a sua luz. Selei meu cavalo, de modo acurado. Ele me livra da cela, porque com ele dinheiro aufiro, o que aqui afiro de modo apurado, eis que conto com incontáveis contas a pagar e quero delas da minha vida apagar.
Preciso trabalhar! Minha despensa, da dura labuta e da luta não me dispensa. Às necessidades devo eludir. Não posso me iludir com meros momentos de fartur. Sei que devo faturar, para todas as faturas quitar.
Arrear bem o animal garante segurança ao cavaleiro e segurança do alcance da postura de cavalheiro, de modo que ele possa arriar com tranquilidade, com discrição, seguindo a descrição das regras de equitação, além de permitir fácil ascensão e assunção ao cavalo, com a presunção de poder ascender e descender cem vezes, sem medo de um escorregão.
Montei, na cela, apetrechos, e montei no cavalo, de tronco ereto, como do jequitibá é o tronco. Minha garganta, um bravo brado de um bravo emitiu, o qual ecoou, voltou e imitiu em mim muita coragem.
Respirei fundo e senti, ao fundo, doce fragrância flagrante no ar. Ao longe, houve um raio. Logo após, ouvi um trovão. De início, fiquei estático. Ao mesmo tempo, fiquei extático com a força do que havia por vir, anunciada para o porvir…
Sinto que ao cinto apertei. Senti, de coração, um aperto no coração, sinal de que era a hora de começar, sabendo que a fria chuva provocaria uma chuva de dificuldades pluviais e fluviais.
Atravessei o rio, como um precursor percursor. Nele me entranhei. Estranhei porque ria do frio das águas que me cortava.
O fiz com previdência, esperando por divina providência. Retifiquei alguns movimentos e ratifiquei outros, como um autêntico dirigente diligente: devagar, sem divagar, dando meus pulos e rangendo os dentes para que os pulos do animal não me lançassem às águas correntes. Minhas pernas imergiam e emergiam. Senti-me inserto em incerto lugar, impassível, passível de possível incidente ou de acidente.
Não renego um desafio e nem relego minha experiência, que de tudo me dá ciência ou, melhor, proficiência. Em vez de sustar, surtar ou refugar, sem refutar, foquei em sustentar minha missão, até vê-la surtir efeitos. Tudo para sortir a despensa, o que não dispenso, porque compensa.
Tive pena de mim; pena das minhas pernas; pena até das penas molhadas dos pássaros. Pensei estar enfrentando uma pena dos céus contra mim… Do alto do meu animal, senti-me mal, porque mau não sou…
Quase morri de medo de íngreme morro adiante, de vegetação inerme, bem diante de mim, cavaleiro inerme. Superado o morro, sem morrer, comemorei.
Por sorte, minha consorte, que é de Boa Vista, com boa vista, avistou uma fonte de água pura, a qual, de vida, é pura fonte. Estava próxima à sede de pequeno sítio, onde não se desmatou, o que nossa sede matou.
Casado com a aventura e cansado com a desenvoltura, tenso, pensei, como sempre penso, no almoço. Parei sobre belo gramado, sob grande árvore, à sombra, longe do sol cujos raios me assombram.
Almocei, incluindo um pão da cesta. Após, tirei uma pequena sesta, até porque era sexta. Encostei no tronco e relaxei o tronco dos trancos do cavalo e desse difícil trampo, em pequeno banco sem encosto, que me bancou o peso.
Ato contínuo, continuei a caçar, prática que trato como um bico, enquanto esse prazer não me cassarem. Pode até ser amoral, mas não imoral, caçar para comer e para um dinheiro ganhar. Aprender como ao bicho apreender exige trabalho acurado e desempenho apurado.
No alto do morro disse auto ao cavalo e evitei alto falar. Do contrário – o que não me espantaria – à caça espantaria. Não se trata de conjetura, mas de conjuntura. De ciência que vem da experiência.
Ao meu servo Diego mostrei um cervo distante. Fiz, com discrição, a descrição de sua localização. Dizer que sua captura seria deveras difícil não seria algo mítico, mas, provavelmente, místico.
Aproximei-me devagar, a divagar. Diferi meu ataque; deferi-me mais tempo, sem me achacar. Como docente-dirigente, sem cassar-lhe esse direito, ensinei meu servo, discente-diligente e destro, a um cervo caçar direito.
Tirei minha arma de dez tiros, comprada em Tiros, e armei o bote para que, em um saco, o cervo botasse. Nele atirei e sua vida quase tirei com um só tiro. Ao dele me aproximar, encontrei-o esbaforido e espavorido.
Meio que como um sem-coração, concluí a caça com um corte no seu coração, o que fez doer o meu. Após, fiz todo o corte daquele animal de porte. Dei o meu sangue para o sangue dele fluir. Restou-me dele fruir e me nutrir.
Do todo – dezenas de kilogramas estendidos sobre a grama – fiz sua seção. Depois, fiz a cessão de parte das seções a dois amigos, para que de uma seção delas desfrutassem logo adiante, diante de uma boa sessão de boas prosas…
Com um especial tempero, passei a mão untada e besuntada por toda a carcaça da caça. Tudo fiz do jeito que gosto e, com muito gosto, sem passar por qualquer desgosto, deixei-o com excelente gosto. Nada sem pé nem cabeça, porque, nisso, sou cabeça. Tenho prática e pratico minhas receitas de cabeça.
Pensei: em casa o asso numa panela de aço que eu mesmo faço. Assim o fiz. Convém informar que parte dele enformei; outra parte enfornei; e outra enfurnei para, depois, a enfornar. Ele é vultoso. Comi-o com moderação para evitar estômago vultuoso.
Para atender ao meu negócio, deixei que um tanto sobrasse e sobre este restante, negociei. Com dinheiro em mãos, saudei meus credores e saldei minhas dívidas. Com acerto, acertei o que devia; chorei o choro do alívio, aliviado com o lucro pelo veado. Depois, ri de graça pela graça de graça recebida. Após absorver puro ar, pedi a Deus para me absolver por eventual pecar. Que me descriminasse, em vez de me discriminar.
Enfim, seguindo meu destino, cheguei ao fim – ao planejado destino – ao ponto final no papel traçado. Tomei um traçado, pondo ponto final à empreitada.
À minha terra natal, de terra vermelha, terra de gente amada, que honra esta terra brasileira, de comprimento sem fim, postei meu cordial cumprimento, mantendo-me a postos, disposto, para relatar outros bons momentos, como este que ora documentei.
Você localizou as palavras parônimas, homófonas, homógrafas, polissêmicas, homônimas e paronomásicas ou disse “ufa, não entendi bulhufas?”
Por Flávio Noronha



