Não há muito tempo o respeito a autoridades prevalecia no cotidiano do brasileiro, com notícias esporádicas de algumas afrontas. Hoje vivemos tempos estranhos, nos quais, com facilidade e já sem espanto, presenciamos cidadãos enfrentando e tentando bater em policiais; filhos agredindo verbal e fisicamente seus pais; netos fraudando cartões de crédito e pensões de seus avós; alunos ameaçando, quando pouco, aos seus professores; casais disputando poder diante dos filhos, sem constrangimentos para trocar ofensas e outras agressões; cidadãos rejeitando a autoridade dos representantes eleitos, descumprindo sentenças judiciais e esnobando leis – sejam elas simples regras de esporte entre amigos, normas básicas de trânsito, de costumes e de civilidade ou normas federais cogentes, de naturezas diversas.
A sensação proporcionada por essa falta de educação é a de que vivemos em um mundo à beira do caos, onde quem resiste a estas nefastas novidades de comportamento é calado pelo radicalismo minoritário dos que as perpetram. Não encontramos condições de alterar a realidade de modo rápido, com atitudes tradicionais, educação, história de vida e exemplos, apesar de não abrirmos mão de tentativas nesse sentido.
Chegamos, literalmente, ao ponto do “ou vai ou racha”, não sendo plausível que aceitemos passivamente o destino que poucos, mas barulhentos transgressores, estão impondo para a grande maioria ordeira: que o “racha” prevaleça” e estabeleça-se como padrão de futura terra sem lei; “de ninguém”; do “salve-se quem puder”; do “cada um por si e Deus por todos”; da inconsequência; da temeridade; das faltas de amor e sensatez.
Infelizmente, como bem nos lembra Nicolás Gómez Dávila, “o tolo não se contenta em violar uma regra ética: pretende que a sua transgressão se converta numa regra nova”. Daí depreendemos que ele é treinado para questionar e não para refletir. Por isso, afrontar autoridades é tido por esse tipo de pessoa como o máximo da expressão de independência e como forma de demonstração de que ninguém manda nele. Isto expõe a confusão que ele faz entre o significado de exercício da liberdade e o que vem a ser falta de respeito, esta iniciada com a extrapolação dos limites socialmente estabelecidos em relação ao primeiro. Mais ainda, mostra a ausência de mínima noção de que somos seres individualizados vivendo uma vida coletiva, onde o respeito é essencial para o convívio saudável.
Aceitaremos – nós, que nos envergonhamos com o ilícito, que repudiamos toda sorte de práticas nefastas, que recebemos educação no berço e a praticamos, que conhecemos as repercussões do mal que os tolos fazem ao grande todo – a dominação por essa minoria que adota a transgressão como norma de conduta?
No Brasil, onde a prática do crime é atitude corriqueira e a corrupção é característica congênita, os maus exemplos que vêm dos detentores do poder (tolos eleitos ou concursados) são doença grave, transmitida em grande profusão. Louis Dembitz Brandeis acertou no alvo ao dizer que o crime é contagioso. Se o governo quebra a lei, o povo passa a menosprezá-la.
Como complemento necessário ao que ele disse, para retratar o que ocorre na terra brasilis, importa esclarecer que, para os grandes, o crime efetivamente tem compensado nos últimos 521 anos. Para os pequenos – cegos transgressores contagiados por imitação – a lei prevalece…
Nesse contexto desalentador, os que deveriam ser paradigmas de boas atitudes são, ao contrário, useiros e vezeiros das trocas de favores por dinheiro; das mudanças de opinião, por dinheiro; dos desvios dos cursos naturais das coisas, por dinheiro; da prática da injustiça, por dinheiro; do oferecimento de proximidade de Deus, por dinheiro; de tudo o que se desvia da verdade, por dinheiro…
São responsáveis, finalisticamente, em razão do amor que dispensam ao vil metal, por inumeráveis mazelas, como mortes físicas, espirituais, morais, cívicas; insegurança jurídica; doenças; desamor; desunião; egoísmo.
E o pior é que ainda se vangloriam de suas posições e aparências, passando ao largo da assombrosa realidade de que nada mais são do que sepulcros caiados, expressão utilizada por Jesus no livro bíblico de Mateus para referir-se aos hipócritas, que por fora parecem belos e formosos, mas que interiormente são um amontoado de ossos e podridão. Como é atual esse preceito bíblico!
Enfim, triunfantes e unidos, prevalecem em nossos dias, com força jamais vista, por um lado e diretamente, a falta de educação e, por outro e indiretamente, como consequência, a influência do dinheiro – deste que é tido e havido como “a raiz de todos os males” – pelos quais o amor ao próximo deixa de ser relevante; sentenças judiciais, mandatos executivos e parlamentares são vendidos; opiniões são alteradas e documentos são adulterados, visando a objetivos escusos; fiscais deixam de enxergar irregularidades; sacerdotes loteiam o céu, em prestações módicas; prisão não envergonha mais a muitos; pais relegam a criação dos filhos ao mundo, ao “Deus dará”; casais moram sob o mesmo teto, porém, separados por interesses infinitamente distantes dos votos conjugais e das responsabilidades sagradas que envolvem a família; etc., etc.
Sobre a educação, cuja falta proporciona tudo o que de reprovável hoje vivenciamos, Pitágoras, G. K. Chesterton, Maria Montessori, Nelson Mandela, Ramalho Ortigão, Karl Kraus e Edmondo Amicis, ensinam que proporcioná-la a uma criança vai ao encontro da realização da sua libertação, haja vista ser ela a alma de uma sociedade a passar de uma geração para outra. Consiste na arma mais poderosa que se conhece para mudar o mundo; mais eficaz de alguém ser útil à pátria, e é pressuposto para que não sejam punidos os adultos.
Porém, a educação, conduta aviltada e em extinção, tem-se resumido a um dito popular muito apropriado: é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem. E este “não possuir” ocorre porque não a encontraram dentro de suas casas, desde o berço.
A todos os que a possuímos e que conhecemos o seu infindável poder, compete-nos aplicá-la naturalmente em nosso dia a dia e repassá-la aos nossos descendentes e próximos, sem nos incomodarmos com a radicalização barulhenta dos tolos de plantão, que sequer a conheceram ou que de sua prática deliberadamente abdicaram, mostrando aos mal intencionados que nos rodeiam, máquinas de burlas, que em cada oportunidade que nos for disponibilizada, a opção entre a transgressão e o cumprimento, o desrespeito e o respeito, o errado e o certo, o aético e o ético, o incivilizado e o civilizado, deve recair sobre o cumprimento, o respeitoso, o certo, o ético, o civilizado e assim por diante, sem exceções.
Como ensinam Edward Coke, Hugo Von Hofmansthal, Anoine de Saint-Exupéry, a razão e a autoridade são as duas luzes mais claras do mundo, sendo que esta repousa sobre a primeira. O reconhecimento da autoridade sobre si é um sinal superior de humanidade, necessária para tutelar a liberdade de cada um contra a invasão de todos e a liberdade de todos contra os atentados de cada um. E que, pela educação que recebemos, entendemos que o amadurecimento nos propicia saber respeitar o que não gostamos, enfrentando civilizadamente as diferenças que nos incomodam.
Exerçamos, pois, a liberdade, sem ultrapassarmos os limites do respeito. Sejamos exemplos práticos, diários e perenes para os que nos observam, como contribuição para um mundo melhor; para um mundo de respeito.
Por Flávio Noronha



