Estrangeirismo

Por: Redação SOS

O estrangeirismo, consistente no emprego de palavras, expressões e construções alheias ao nossa idioma, emprestadas de outras línguas, nunca esteve tão
presente no linguajar do brasileiro como atualmente. Há perigo real de que sejamos dominados por ele.

Nosso povo – composto por 16 milhões de analfabetos; 110 milhões, na faixa etária entre 25 e 64 anos, que não concluíram o ensino médio; apenas 10 milhões
de conhecedores da língua inglesa e infinitamente menos quanto à francesa – julga bonito substituir o vernáculo por linguagem estrangeira, a qual é utilizada
desnecessariamente, em razão de modismo, sem sequer saberem os usuários, na sua maioria, quais os reais significados das palavras que proferem. Apenas as
decoram e repetem mecanicamente.

Palavras e expressões estrangeiras têm sido lançadas sobre nós em profusão pelos “formadores de opinião” e adotadas por incontáveis “Marias-vão-com-as-
outras”, estas movidas pela sensação de que estão enriquecendo suas falas, textos, valorizando seus negócios e, com isto, apresentando-se à sociedade em
grau de superiorioridade intelectual.

Na prática, nada mais fazem os seus adeptos do que subvalorizar a riquíssima língua portuguesa – que não necessita nem minimamente de preencher lacunas
em seu repertório – e até ofender a quem os lê e ouve.

Em propaganda de rádio que circula nos últimos dois meses, uma empresa rompe todas as barreiras da sensatez ao apresentar-se, em longo comercial, puramente por meio de estrangeirismos, utilizando-se de raras palavras no vernáculo pátrio, o que é ridículo.

Para exemplificar a que ponto podemos chegar se não houver cuidados e atenção, contarei a seguinte história, que consiste na preocupação de um médico
com o computador de seu consultório e as consequentes instruções à sua secretária no sentido de, preventivamente, buscar uma solução, o que faço
utilizando-me de estrangeirismos já incorporados ao nosso cotidiano. A história contém exageros, mas não seria temerário afirmar que apresenta realidade que
se nos avizinha. Oportuno glossário segue ao final. EI-LA:

“Um médico, autor de “best sellers” em sua área de “expertise”, carinhosamente chamado de “My Doctor” por alguns de seus pacientes, após o “check in” e antes
de embarcar, preocupado com um “case”, conecta-se ao seu “laptop” – haja vista ter deixado o “palmtop” e o “notebook” em casa – e passa a escrever um “e-mail”
para sua secretária, pedindo a ela que ache um momento no próximo dia para dar um “break” no seu trabalho e fazer um “back up” nos arquivos do PC principal,
haja vista que o seu funcionamento tem se mostrado meio “blasé”. Isto porque – o que aqui passo como um “spoiler” desta história – na noite anterior
ele teve um “insight” de que, a qualquer momento, falhas que já se repetem há alguns dias mostram-se como uma “trend” para ocasionar um “boom” insuportável
para a máquina, o que deixaria o doutor “tête-à-tête” com um doloroso “bye bye” de todo o seu acervo digitalizado de clientela.

Seria um desastre se isso ocorresse, pois impediria importantes contatos via “maylings”, essenciais ao “merchandising” do seu “bureau”, os quais são muito
apreciados pelas clientes – na sua maioria “socialites”, sem que o doutor seja “snob” por isso. A “higt society” faz parte há anos do seu quotidiano.
DISSE A ELA, TAMBÉM…

… que, diante de alguma dificuldade, não insistisse nas tentativas e que fizesse
“incontinenti” um “link” com o “habitué” “expert” que lhes presta oportunos “helps”,
já que ele já é um “brother” do consultório, com “handicap” reconhecido e “know-
how” inquestionável. Ou seja, que ela desse um “start” no “job” dele.
CONTINUOU COM SUAS ORIENTAÇÕES, DIZENDO O SEGUINTE:
Se, pelo seu “feeling”, a solução pairar sobre esta opção, acione-o desde já e
peça um “budget” preliminar, que inclua “check up” minucioso, revisão da
“homepage” do nosso “site” (com possível “up-to-date”), sem alterar o seu “look”,
de forma a suprir qualquer “déficit” de funcionamento, presente e futuro.
Informe que ele pode deixar o carro no “valet park” e que nós lhe daremos um
“voucher” de isenção; que o “job” será pago em “cash” ou por “home banking”,
conforme ele preferir; que deve ser realizado sob a forma de “delivery” e não de
“drive-thru”.

E, DANDO SEGUIMENTO, PEDIU QUE O ALERTASSE…
… que o “check in” não pode ultrapassar as 9 da manhã; que o “deadline” para o
“check out” vence às 15hs; que um “download” preventivo é aconselhável; e que
há na primeira gaveta um “dossier” sobre atendimentos anteriores, o qual, apesar
de meio “démodé”, pode ser-lhe útil.

Repassadas as orientações que queria ver chegar ao “expert”, passou ao “menu”
de atitudes que queria da secretária, o que fez dizendo:
Além disso, conto com Você para passar a ele um “flashback” do funcionamento
do PC.

Como ele presta serviços nessa área em “full-time” e sabedor de que este
intrincado meio “high-tech” para ele é quase que um “hobby”, sugira-lhe trabalhar
sob a forma “non-stop” e a almoçar por aí mesmo, que nós pagamos.
Ele verá que não se trata de pedido “nonsense”. Afinal, “time is money”!
Encomende algo “light”, mas do tipo “fast food”, sem “drinks” alcoólicos, é claro.
Sou “workahollic”. Você bem me conhece; sabe que esta situação me deixa
ansioso; e que não se trata de “mise-en-scène”. Por isso e pela via das dúvidas
vou municiar minha “nécessaire” com aquele “pot-pourri” de calmantes.
Do meu “staff”, você é pode ser considerada “top”.
Portanto, conto com sua “performance” ao estilo “low profile” para implacável
“follow-up” do “expert” – o que evitará indesejável “slow motion” – e “feed-backs”
a cada hora e meia.

Siga o meu “croquis” e tudo dará certo. Estarei “on-line” o tempo todo, em “standby” permanente – inclusive no “toillete” – para o caso da necessidade de
uma “brainstorm”, o que poderemos viabilizar pelo nosso “chat”. Obrigado pela sua dedicação. Quando da minha volta, espero encontrar tudo
“OK”.

Trarei p’ra Você um “suvenir” e falaremos sobre possível “upgrade” de salário, de preferência em descontraída “happy hour”, servidos por um atencioso “barman”.”
Enfim, esse tal de estrangeirismo, como se vê, causa enjoos. Tenhamos cuidado, então, com sua utilização. De preferência, esqueçamo-lo e prestigiemos a nossa
querida e última “Flor do Lácio”, como Olavo Bilac descreveu o nosso vernáculo no Soneto…
… ‘“Língua Portuguesa”.
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”

Glossário:
Back-up – cópia de segurança
Background – experiência
Best-seller – êxito de vendas
Blasé – enfastiado
Boom – crescimento súbito
Brainstorm – reunião para debate de ideias
Break – parada
Budget – orçamento
Bye-bye – adeus
Cash – a dinheiro
Chat – sala de conversação
Check-in – registro de entrada
Check-up – exame geral
Checkout – registro de saída
Croquis – esboço
Deadline – data limite
Deficit – prejuízo
Delivery – entrega
Démodé – fora de moda
Dossier – pasta, arquivo
Download – descarregar, baixar
Drink – bebida
E-mail – correio eletrônico
Expert – especialista
Expertise – perícia
Fast food – comida rápida
Feedback – retorno
Feeling – percepção, sensação
Flashback – retrospectiva
Follow-up – acompanhamento de tarefas
Full-time – tempo inteiro
Habitué – frequentador
Handicap – qualificação
Happy our – encontro ao fim do dia
High society – alta sociedade
High-tech – alta tecnologia
Hobby – passatempo
Home banking – atendimento bancário remoto
Homepage – página inicial, principal
Insight – intuição, pressentimento

Know-how – conhecimento, experiência
Layout – esboço
Light – leve
Link – conexão
Look – imagem, moda
Low-profile – discreto
Mailing – lista de endereços
Merchandising – promoção, divulgação.
Mise-en-scène – encenação
Necessaire – porta objetos para viagem
Non-stop – ininterrupto
Nonsense – absurdo
On-line – conectado
OK – Entendido
Performance – desempenho
Pot-pourri – miscelânea
Script – guia
Site – sítio
Snob – arrogante
Socialite – integrante da “alta sociedade”, elite
Slow motion – lentamente
Suvenir – lembrança, recordação
Spoiler – dica
Staff – equipe de trabalho
Standby – em posição de espera
Tête-à-tête – frente a frente
Toillete – lavabo, banheiro
Top – máximo
Trend – tendência
Upgrade – promoção
Up-to-date – atualizado
Valet-park – service de manobrista
Voucher – vale
Workaholic – viciado no trabalho

 

Por Flávio Noronha

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