SUPER-HUMANOS SONHADORES

Por: Redação SOS
Diálogo Sobre Sonhos

Voar, como tantos poderosos heróis do nosso imaginário, sempre foi desejo que permeou longos e agradáveis sonhos de nossa criancice, juventude e, convenhamos, também de boa parte dos dias de todos os simples mortais, independentemente da idade de cada um. 

A sensação inigualável de liberdade, atingida plenamente nesses sonhos, motivou a muitos pela busca de sua realização, o que proporcionou a criação de engenhosas máquinas desbravadoras do céu. Mas, apesar do enorme desenvolvimento tecnológico e da sua evolução, a satisfação por elas proporcionada guarda distância inalcançável das ilimitadas autonomia, leveza, agilidade e velocidade que experimentamos ao sonhar.  

Se, na prática, este poder heroico nos é inalcançável, no imaginário ele se concretiza com um simples fechar de olhos – deflagrador do descanso noturno ou de um pequeno desprendimento, em pleno dia – para melhor sentir e tornar próximo do real um incontido desejo de momento, até porque “Não é herói aquele que não tem imaginação” (Márcio Rodrigo) e “Sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio” (Anatole France).

Alvaro G. Loregian retrata o dormir como forma de “acordar um sonho” e Mário Quintana explica que “sonhar é acordar-se para dentro”, o que é libertador do nosso espírito aventureiro e ativador consciente de auto-realizações. Sonhar, sabemos bem, é “dar asas à imaginação”.

Entretanto, como nem tudo é perfeito, problemas surgem com o despertar, quase sempre abrupto, promovido pelo término da noite de sono; pela interrupção do benfazejo transe de quem sonha quase acordado; ou pela decepção avassaladora que nos sobrevém ao percebermos que aquelas aventuras, até então esplendidamente reais,  não passaram de cara e imaterial obra produzida por mentes ansiosas pelo poder de voar. Como bem percebeu Clarice Lispector, “Às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens”, sendo que Virgínia Woof vai além, ao dizer que “…É o acordar que nos mata”.

Isto mostra o porquê de muitas vezes mantermo-nos – já muito próximos do despertar – sobre a tênue linha que separa o sonho da realidade, resistindo, ao máximo, em hábil controle impeditivo da inevitável transição, o rompimento do limite em que tudo voltará ao normal, pelo chamamento do amanhecer. Impiedosa realidade que  ignora solenemente os nossos desejos de continuação do êxtase noturno e do acreditar que somos poderosos humanos; incansáveis voadores; incontidos desbravadores dos céus. Mas, como nos lembra Alvaro G. Loregian, trazendo-nos ao solo, é preciso “…acordar para sonhar uma vida”.

Não há dúvidas quanto a que, a partir dos nossos primeiros voos sonhados, mudamos definitivamente o nosso ser. O desejo de ganhar os céus – de preferência acordados – toma conta dos nossos pensamentos. Entendemos, então, o porquê de os nossos super-heróis terem na capacidade de voar a expressão máxima de suas habilidades: o voo é a materialização do poder que queremos por toda uma vida.

Leonardo Da Vinci, dos altos everestianos de sua sabedoria, sem que jamais tenha descolado seus pés da terra para sequer um simples voo, mostrou bem conhecer estes sentimentos humanos – talvez por ter, como nós, vivenciado em sonhos o prazer de dominar os céus – ao dizer que “Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para o céu, pois lá você esteve e para lá você sempre desejará voltar.”  

E, assim, ao olharmos para o céu, invejamos as idas e vindas desenvoltas dos pássaros, os quais, ávidos por suas refeições, agilmente recortam os ares; ou, como se peso não tivessem, deixam-se levar às alturas pelas correntes de ventos; ou, ainda, elegantemente, pairam de fronte às flores, em busca de seu doce néctar combustível… 

Como é bom sonhar o sonho do voo livre; de tornarmo-nos amigos próximos do céu e das estrelas, como partes integrantes do firmamento; de rompermos os limites do que, sóbrios, nos parece intransponível: a superação do temor das alturas; do seu alcance; do domínio do seu imenso vazio e de suas inerentes incertezas.

Dostoiévski concluiu que “Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”

Como contraponto a tão contundente assertiva, entre os nossos antepassados houve os que não temeram as alturas e amaram o vazio, em busca da liberdade. Rejeitaram as gaiolas e deram-se às incertezas, até que conseguiram voar… Otto Lilienthal, Santos Dumont, os irmãos Wright e Richard Browning  deram asas ao pré-histórico sonho humano de ascender aos céus e lançaram-se a voos verdadeiros, emocionantes e inesquecíveis. 

Por obra dessas brilhantes mentes conseguimos realizar parcialmente esse desejo, eis que alcançamos o céu; pisamos a lua; sentimo-nos mais próximos de Deus e do calor do sol.  Contudo, não o fizemos naturalmente, como gostaríamos. Precisamos de magníficas máquinas voadoras que nos têm como condutores ou como meros ocupantes.

Os sonhos: ordinário, profundo e o desprendimento do Espírito

Mais do que jamais, temos a certeza de que voar livremente, sem o auxílio mecânico; planar como águias altaneiras; mergulhar no vazio como velozes falcões; pairar no ar como beija-flores; são, e eternamente o serão, características extra-humanas, exclusivas de nossos melhores sonhos, o que é um misto de felicidade e de frustração. Como dizia Heródoto, “De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada”.

Parafraseando “One Direction”, “Alan Ernesto”, Paul Valéry e Charles Chaplin, entenderemos que, se não podemos ser e voar como super-heróis, a melhor maneira de realizar nossos sonhos é acordar, vestir nossas roupas de combate e batalhar para sermos super-humanos, porque, mais do que de máquinas e de brincar de super-heróis, o mundo está carente de humanidade.

Para finalizar – e por amor a verdade consabida pelo povo brasileiro – urge mencionar o que parece ser a única exceção humana ao voo solo e controlado, sem o auxílio de máquinas e mundialmente conhecida: o voo de Dadá Maravilha! 

beija-flor | Britannica Escola

Ele, como o helicóptero e o beija-flor, além de voar, paira no ar! E, já que só ele goza de tal poder super-heróico, a nós, todos os demais simples humanos, resta-nos o contínuo sonhar, posto que o sonho nos dá a “Liberdade de voar num horizonte qualquer e de pousar aonde o coração quiser”, como nos ensina Cecília Meireles.    

Flávio Noronha             

20 de julho de 2020

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