A maior cidade construída no mundo no século vinte foi Brasília. Atualmente, ela é a terceira mais populosa do Brasil. Sua idealização é muito antiga. O longo percurso experimentado entre a vontade de transferir a capital brasileira para o centro do país e a sua efetiva implementação, durou 211 anos, partindo da idealização de Francesco Tosi Colombina, em 1749, e chegando à sua inauguração, em 1960, com Juscelino Kubitscheck de Oliveira, o que promoveu o desejado desenvolvimento nacional, pela aproximação de todos os estados brasileiros ao centro do poder.
Por mais de duzentos anos, no período colonial, São Salvador da Bahia de Todos os Santos, foi a capital do Brasil. No ano de 1749, Francesco Tosi Colombina – genovês, cartógrafo, geógrafo e engenheiro militar – elaborou a Carta da Capitania de Goiás e Mato Grosso, fazendo nela constar a ideia de mudar a capital do país para a região central da Capitania de Goiás. Remetida ao então governador da referida Capitania e futuro vice-rei do Brasil, Dom Marcos José de Noronha e Brito, o Conde dos Arcos, este concedeu a licença para a exploração do que seria um “caminho novo”.
Em 1763, Salvador foi sucedida pela cidade maravilhosa – São Sebastião do Rio de Janeiro – cuja mudança visava ao maior controle da produção e do fluxo de outro e de pedras preciosas, o que dificultaria os extravios que prejudicavam a Coroa Portuguesa.
Apesar de sua manutenção no litoral, a ideia que persistia era a de promover estratégica “mudança nos ventos”, afastando do mar o centro do poder, direcionando-o para o interior da colônia, o que, segundo os seus defensores, produziria maior segurança, haja vista os meios naturais dificultadores dos avanços e das pretensões de ataques de conquistadores. Falava-se na criação de cidade chamada de “Nova Lisboa”, para corte e assento do rei, no Planalto Central.
Setenta e quatro anos depois da sugestão de Colombina, em 1823, ano Constituinte do Império, projeto sério de deslocamento da capital foi apresentado, já contendo a sugestão de chamar-se de Brasília a nova cidade, tendo as mineiras São João Del Rey e Paracatu, e a goiana Formosa, todas centro-interioranas, disputando a preferência de escolha, sendo que Paracatu levava vantagem em razão do apoio de seu nome por José Bonifácio de Andrada e Silva, autor da proposta e o Patriarca da Independência, para quem a nova capital deveria ser batizada de “Petrópole”.
Vinte e nove anos após, em 1852, Holanda Cavalcanti, parlamentar pernambucano, apresentou ao Senado projeto impulsionador da proposta de José Bonifácio, convicto da sua grande importância para o país, tendo este recebido reforço um ano mais tarde, por meio do ilustre piauiense e também senador, João Lustosa da Cunha Paranaguá – o Segundo Marquês de Paranaguá. Apesar destes importantes movimentos, a proposta “adormeceu” novamente.
Em 1887, ou seja, 138 anos após a ideia original, Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, militar, diplomata e historiador, fez a primeira viagem ao Planalto Central, lugar ainda obscuro, visando localizar o ponto ideal de sua instalação ou até indicar novas regiões. Percorreu o trajeto em lombo de burro e sugeriu o nome de “Imperatória” para a nova capital.
Quatro anos após, o projeto de interiorização recebeu mais força, com o estabelecimento, pela Constituição de 1891, da demarcação de área de quatorze mil e quatrocentos quilômetros quadrados para receber a “Cidade Tiradentes”, segundo proposta de nome apresentada.
Em 1892, o Presidente Floriano Peixoto lançou ao trabalho um grupo de 21 homens, denominado de Comissão Exploradora do Planalto Central, o qual foi liderado pelo engenheiro Luiz Cruls, então major-honorário do Exército Brasileiro, a quem foi conferida ampla liberdade para, exercitando comando autônomo, desincumbir-se da missão de desbravar o inóspito sertão de Goiás, vizinho a oeste das Minas Gerais, e demarcar a área do futuro Distrito Federal, apontando a que consideraria como a ideal.
Na manhã de nove de junho, a Comissão partiu do Rio de Janeiro a caminho de Goiás, carregando duzentos e seis caixotes e fardos, com dez toneladas, ou mais, sendo o primeiro trecho percorrido por trem, com destino à mineira Uberaba. O segundo foi no lombo de burros, sendo duríssima a jornada de quinhentos e três quilômetros, até Pirenópolis, com passagem por Catalão e as atuais Ipameri e Bonfinópolis, continuando por Santa Luzia e pela Vila Formosa de Imperatriz, hoje denominadas, respectivamente, de Luziânia e Formosa.
Louis Ferdinand Cruls registrou tudo o que viu: fauna, flora e hábitos dos interioranos do Brasil; orologia, condições climáticas e higiênicas de toda a região; natureza do solo, qualidade da água, e se a havia em profusão; apresentando ao Presidente, em 1894, o quadrilátero que demarcou, resultado brilhante da missão que desempenhou durante nove meses extenuantes de viagem empreendida, e cinco mil, cento e trinta e dois quilômetros percorridos. Seu épico estudo, como “Relatório Cruls”, ficou conhecido.
Logo após, uma segunda Comissão foi criada, o que se deu ainda em 1894, cujo relatório foi apresentado em 1896 (apesar de sua interrupção por falta de dinheiro), contendo certeiras informações sobre ligações ferroviárias no local demarcado. Por seus prestimosos trabalhos e por sua participação em defesa da República que o naturalizou, Cruls foi promovido à posição de tenente-coronel. Faleceu em 1908, com 60 anos, sem ver a implantação da capital que ajudou a idealizar, cuja pedra fundamental foi lançada quatorze anos depois, em Planaltina, hoje parte limítrofe do Distrito Federal.
A Constituição de 1934 tratou explicitamente da transferência da capital para o Planalto Central – havendo a sugestão de que esta se chamasse “Cabrália” – e a Carta Magna de 1946 a tornou imperativa, o que moveu o Presidente Eurico Gaspar Dutra a indicar o General Djalma Polli Coelho para comandar nova Comissão Técnica, visando ao “Estudo da Localização da Nova Capital da União”, o qual desincumbiu-se da missão dois anos após, escolhendo a região do Planalto Central Goiano como a ideal, o que ratificou o trabalho de Cruls, redimensionando, entretanto, para 7.500 quilômetros quadrados, a metragem inicialmente demarcada para a ocupação do cerrado. “Vera Cruz” foi o nome sugerido pela missão, à nova capital.
Lei regulamentadora para a realização de estudos conclusivos, visando à transferência, foi editada pelo Congresso Nacional, o que gerou a convocação, para tanto, por Getúlio Vargas, do Marechal José Pessoa, o qual, ao lado de mais cem voluntários, sem qualquer remuneração, desincumbiu-se de localizar a nova metrópole e foi além, planejando sua construção e mudança.
Dentre cinco sítios propostos (um – marcado em verde – localizado onde hoje é a cidade de Planaltina; outro – em vermelho – próximo a Unaí-MG; outro – em azul – onde se situa Anápolis-GO; outro – em amarelo – abrangente dos municípios de Leopoldo de Bulhões, Silvânia e Vianópolis; e outro – em castanho – onde atualmente situa-se Brasília), de similares tamanhos, escolheu-se o de cor inusual, que se apresentava como o “Sítio Castanho”, com 5.802 km2, ou seja, aquém das metragens por Cruls e Polli Coelho já demarcadas.
Em 1955, o Presidente Café Filho aprovou os estudos e a nova medição, tendo o candidato JK prometido, em um comício na cidade de Jataí-GO, que, se eleito, faria a construção, incluindo esta promessa na “Meta-Síntese”. Vitorioso nas urnas, cumpriu seu compromisso, determinando a Oscar Niemeyer e a Lúcio Costa que se debruçassem sobre os estudos para tornar realidade o que, até então, era um sonho, trazendo para o interior do Brasil a capital federal, inaugurada em abril de 1960, 211 anos depois de sua idealização, chamando-a, definitivamente, de Brasília.
FLÁVIO NORONHA



