Não temais ímpias falanges!

Por: Redação SOS

O Hino da Independência do Brasil, como tantos outros, é cantado, mas não é conhecido em sua essência. A acomodação nos impede de buscar conhecê-lo amplamente, o que, se acontecesse, nos permitiria repeti-lo, a plenos pulmões, nas raras ocasiões (exceção aos militares) em que presenciássemos sua apresentação.

 

Que tal rompermos a barreira do desconhecido e, doravante, o cantarmos com conhecimento de causa? Este artigo mescla a sua história com o seu teor, de forma, pretendo, didática e simples.

 

Para começar, é bom saber que ele foi escrito por Evaristo da Veiga; que a melodia é de Dom Pedro I; e que seu objetivo é o de comemorar a libertação do país do domínio de Portugal e de engrandecer o Brasil e os brasileiros pela luta que empreenderam até alcançar a independência.

 

Conta a história tradicional que o Príncipe Regente, Dom Pedro IV de Portugal, momentos antes do famoso grito de “Independência ou morte!”, determinou aos soldados que o acompanhavam, que jogassem fora os símbolos portugueses que compunham os seus uniformes, ato que, conjugado com o famoso brado de guerra libertador, simbolizou que naquele instante o Brasil deixava de ser colônia, passando a país livre e independente.

 

A forma monárquica de governo continuou. O Príncipe Regente – Dom Pedro IV de Portugal – tornou-se, também e ao mesmo tempo, Dom Pedro I do Brasil. Como seu primeiro Imperador, foi apelidado de “o Libertador” e “o Rei Soldado”, tendo exercido o seu reinado entre 1822 e 1831, quando abdicou do Trono. Entre março e maio de 1826, acumulou o reinado do Brasil com o de Portugal e Algarves.

 

Ainda, pelos termos da tradição histórica, conta-se que no mesmo dia 7 de setembro de 1822, o novo Imperador – motivado pelo que protagonizara pela manhã às margens do rio Ipiranga – teria criado a música que comportaria a letra do Hino da Independência, adotado, então, como Hino Nacional.

 

A letra – um poema intitulado “Hino Constitucional Brasiliense” e conhecido como “Brava Gente”- havia sido criada um mês antes por Evaristo Ferreira da Veiga e Barros, jornalista, poeta, livreiro, acadêmico da Academia Brasileira de Letras, ex-deputado por Minas Gerais, defensor de causas democráticas e pregador ardente da separação do Brasil de Portugal.

 

Dada a sua beleza e composição clássica, representadas pelo “Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”, logo caiu no gosto da corte, o que proporcionou o recebimento de duas melodias: uma de autoria do maestro Marcos Antônio da Fonseca Portugal e outra, posteriormente, do próprio Imperador, aficionado por melodias e ex-aluno do maestro, tendo esta prevalecido sobre aquela, o que proveu ao conjunto letra-música a oficialização pelo nome de “Hino da Independência”. Desde então, foi tratado como Hino Nacional, até sua substituição pelo atual, de autoria de Joaquim Osório Duque-Estrada e Francisco Manuel da Silva.

 

Por circunstâncias políticas, o Hino perdeu seu prestígio e ficou no esquecimento por mais de 100 anos, tendo seu renascimento ocorrido em 1922, nas festividades do centenário da Independência (porém, executado com a música do maestro Marcos Antônio). Sua consolidação, com a regulamentação de forma e autoria (com a melodia de D. Pedro I), deu-se na década seguinte, pela ingerência do ministro Gustavo Capanema e do maestro Heitor Villa-Lobos.

 

O Hino em si parece-se, na essência, com o Hino Nacional Brasileiro, contendo a afirmação patriótica da disposição do povo por lutar pela sua terra e pelos seus direitos, em direção à liberdade, longe da servidão e da colonização a que houvera sido submetido, o que inclui morrer pelo Brasil, repetindo, em tese, o brado retumbante de “Independência ou morte!”, dado por Dom Pedro I perante as margens plácidas do rio Ipiranga.

 

Por isso, ao cantá-lo, direcionamos nossas vozes, com forte sentimento nacionalista, aos filhos deste solo (nós mesmos), ressaltando que o Brasil – tido como nossa amável e generosa mãe – nas pessoas de cada brasileiro, está feliz, porque, com a independência declarada, nossos antepassados viram no horizonte a liberdade raiando, surgindo, mostrando que vinha aos seus encontros, como gloriosa materialização do que antes era um sonho intenso e garantida a nós hoje, pelos seus esforços e muita luta.

 

O estribilho, ou refrão do Hino – repetido após cada estrofe e como seu finalizador – constitui-se como saudação ao povo brasileiro (a todo ele e a cada um, isoladamente), tratado como brava gente brasileira; como exaltação de sua coragem e valentia sem iguais; e como incentivo para que esta expurgue de seus corações o temor de Portugal, nosso vil colonizador.

 

Estes mesmos brasileiros mostraram o poder superior de sua vontade, representada por mão mais poderosa – a de Dom Pedro I – que proporcionou a libertação das amarras de metal que os mantinham deslealmente colonizados, ao ponto de, em enaltecimento à soberania brasileira, rirem-se delas, debochando de Portugal pela cilada que representava a colonização.

 

O Hino exorta as tropas brasileiras, que estavam descrentes quanto às lutas que adviriam, para que tivessem ciência de seu poder e para que o seu moral não se abatesse, exaltando sua valentia e sua grande força, provenientes de seus braços e peitos, formadores como que de muralhas protetoras contra grupos que ameaçassem o Brasil, lembrando que o inimigo e suas hostilidades, chamados de ímpias falanges, poderiam apresentar-se mediante pressões internacionais ou por meio de hostes rebeldes instaladas no próprio território nacional.

 

O Hino é concluído com a parabenização ao Brasil e ao povo brasileiro, tratados, no lugar dos sinônimos “da Pátria filhos” e “Brava gente brasileira”, pelo vocativo “ó brasileiro”, o qual é exaltado por, elegantemente, fazer resplandecer o brilho do novo Brasil independente mundo afora; por propiciar a este que caminhe com autonomia; e por torná-lo amplamente destacado, em poder e grandiosidade, diante de todas as outras nações mundiais.

 

Que esta história e os sentimentos patrióticos que ela nos provoca, sirvam como motivadores da disseminação e da semeadura do civismo aos nossos compatriotas, o que é tão raro nos corações da maioria desse povo heroico, e que alguns trechos de outro hino, o Nacional Brasileiro, nos lembrem sempre de que…

 

“Entre outras mil

És tu, Brasil

Ó Pátria amada!”

 

FLÁVIO NORONHA

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