Juntamente com a Bandeira, o Selo e as Armas Nacionais, o Hino Nacional Brasileiro é um dos quatro símbolos oficiais da República Federativa do Brasil. Quase todos, infelizmente, são ilustres desconhecidos do nosso povo. A bandeira é desrespeitada; a letra do hino, não é entendida e reinventada, no improviso; as Armas e o Selo Nacionais, ignorados.
Falemos, então, um pouco, sobre o Hino Nacional. 22 de novembro de 1889 foi a data da abertura do concurso oficial que resultou na sua escolha. Venceu a música de autoria de Francisco Manuel da Silva, cuja oficialização deu-se em 20 de janeiro de 1890, pelo governo provisório.
Contudo, não havia letra para a nova música. Somente 19 anos depois, pelas mãos de Joaquim Osório Duque-Estrada – após passar por diversas alterações, até chegar à sua versão definitiva – é que celebrou-se o “casamento” de sucesso, que hoje conhecemos.
A letra foi vendida por cinco contos de réis para a União, o que ocorreu em agosto de 1922. O negócio possibilitou sua apressada oficialização, para que no setembro daquele mesmo ano ela pudesse ser executada nas festas de comemoração do primeiro centenário da independência.
Hoje, orgulhamo-nos do nosso glamoroso hino. Mas, na prática, pouco entendemos do seu significado, e, menos ainda, do das muitas palavras e expressões nele contidas. Conhecê-lo na forma de uma história, contextualizada à realidade do tempo de sua criação, certamente ajuda a compreender seus detalhes e essência, o que faremos a partir daqui. Então, vamos à história.
No dia 7 de setembro de 1822, as calmas margens do riacho Ipiranga (cujo nome indígena, de origem tupi, significa “rio vermelho”; com nove quilômetros e meio de extensão e deságue no rio Tamanduateí), em São Paulo, “ouviram” e “viram” do príncipe-herdeiro do trono de Portugal, Dom Pedro I, um grito forte e decidido: “Independência ou morte!”
A voz do príncipe representou as de todo o sofrido, mas heroico, povo brasileiro; fez ecoar, pelos quatro cantos do País, o que foi o anúncio da independência do Brasil em relação ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, encerrando trezentos e vinte e dois anos de domínio colonial português.
Este ato transformou a Terra Brasilis – como era denominada nossa pátria, antes da chegada dos europeus – de colônia, em nação tão iluminada quanto o sol, com seus raios brilhantes, tendo sido com o astro-rei comparada, em termos de dominância, a liberdade que doravante se experimentaria, diante do até então predominante e obscuro colonialismo.
Se a garantia dessa conquista – alcançada mediante muito esforço, luta e firmeza dos comandantes do Brasil, que promoveu igualdade de condições entre o novo Estado e as demais nações do mundo – estava na segurança de que, para sempre, haveria liberdade no dia a dia e no coração de cada cidadão, esta deveria ser, eternamente, defendida pelos brasileiros com todas as suas forças, e, até, se preciso, com as próprias vidas.
A exclamação “Independência ou morte!”, além da óbvia demonstração da disposição patriótica, de cada cidadão, de morrer pelo Brasil, carrega consigo declaração de amor incondicional pela pátria venerada, reafirmada com um “Salve! Salve!”, expressado como saudação e desejo ardoroso de proteção à nossa terra.
Nesse contexto, a libertação experimentada é comparada a um sonho intensamente desejado, transformado em realidade, advinda como bênção do nosso belíssimo céu – claro, brilhante e promissor firmamento – até a terra, de forma similar a um raio de brilho e intensidade absolutos.
A constelação do Cruzeiro do Sul, abrigada por esse lindo infinito, e visível somente no hemisfério que vivemos, assumiu a missão de nos chamar à perene lembrança de que somos um povo cristão; de nos trazer à memória a cruz do calvário, vazia; de Jesus Cristo, ressurreto; do Seu espírito consolador; do Seu amor; e da esperança de nova vida n’Ele.
Passando o foco para a terra, ressaltamos no Hino que a geografia e a grandeza do Brasil, que o tornam o quinto maior país do mundo, são um espetáculo à parte e simbolizam nossas riquezas naturais, beleza, força, e destemor. Comparamos estas características à grandiosidade de uma estátua de tamanho descomunal, inexpugnável, eterna, sendo isto o que se quer para o futuro de nossa pátria, esta mãe amável e generosa, por nós escolhida como a melhor dentre todos os outros lugares do mundo.
Ainda sob esse cenário de céu, mar e forças, incluindo a sua localização terrestre privilegiada, nossa natureza é mostrada como um berço esplêndido, que abriga o Brasil de forma toda especial, eis que este pode ser comparado a um bebê – dado o seu então recente nascimento como país independente – mostrando-o, também, como o florão, o ornamento mais vistoso de todo o Novo Mundo – a América – que se torna ainda mais vistoso, quando é iluminado pelo astro-rei, postado no profundo cosmos.
Como tudo no Brasil é maravilhoso, continua o poeta parnasiano nos levando a cantar o chamado à atenção para a nossa terra, sempre enfeitada por lindos campos, os quais parecem sorridentes, em razão das tantas flores e dos bosques que esbanjam vida, o que proporciona às nossas, por termos nascidos em lugar tão especial, prazer e mais amores, inspiração poética pinçada da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias.
A esse Brasil – objeto de amor eterno, comprometimento e fidelidade de seu povo – demonstramos nossos sentimentos, empunhando a Bandeira Nacional, com suas 27 estrelas, indicadoras das unidades da federação, cujo verde-amarelado – tonalidade da planta chamada de “louro” (erva utilizada nas coroas dos imperadores romanos; símbolo de poder e grandeza) – representa o desejo de paz para todo o futuro e a lembrança das lutas que promoveram as glórias do passado.
Para concluir este cenário histórico, formador do Hino Nacional, declaramos, cantando de peitos abertos e em alto e bom som, que, se for preciso, em futuro de eventual guerra, portaremos armas contra injustiças que ameacem a soberania da nação brasileira e em proteção ao nosso povo, para que todos os mal-intencionados saibam que os filhos desta terra jamais fugirão à luta. Pelo contrário: estaremos prontos até para darmos as nossas vidas pela Pátria, haja vista nossa adoração pelo País, que de nós tira o temor da morte; nos motiva a enfrentar quaisquer dificuldades; e nos impede de abrir mão de nossos direitos e liberdade.
Que esta história – e os sentimentos patrióticos que ela nos provoca – sirva como motivação para a disseminação do civismo, o que está adormecido nos corações da maioria da brava gente brasileira. Cantemos para os nossos próximos trechos de outro hino, o da Independência, o qual nos lembra, parafraseado, de que…
Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil!
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil!
Longe vá, temor servil!
FLÁVIO NORONHA



