Salve-se quem puder

Por: Redação SOS

Nunca se viu desrespeito tão grande às normas de trânsito como nos últimos anos. Em qualquer lugar presenciamos, com facilidade, veículos estacionados sobre a calçada ou em fila dupla; trafegando pelo acostamento; empreendendo contramão; abusando da velocidade; ignorando placas; estacionando na contramão das vias; etc., transformando o nosso dia a dia em um verdadeiro “salve-se quem puder”.

 

Ao mesmo tempo e curiosamente, nestes mesmos lugares e ocasiões, não vemos o Estado, pelas suas polícias, fiscalizando e punindo infratores, salvo em casos típicos, quando flagram motoristas falando ao celular; embriagados; ou sem o cinto de segurança; situações que exigem delas pouco ou quase nenhum esforço, haja vista que a constatação destas infrações dão-se de dentro de suas confortáveis viaturas, sem a necessidade da notificação presencial dos abusados, ou em blitzes.

 

Somam-se a estas circunstâncias, as capturas dos radares fixos – autênticos batalhões policiais fotográficos – que denunciam alta velocidade, passagem pelo sinal vermelho, avanço sobre faixas de pedestres e, ultimamente, pela leitura eletrônica das placas, atrasos tributários. Tudo isso é importante, mas está muito longe de manter a ordem no trânsito.

 

O que mais impressiona são os maus exemplos, vindos das próprias polícias, que estacionam suas viaturas sobre calçadas e mantêm-se nelas, ligadas e com os ares-condicionados em funcionamento, produzindo algo como uma quota diária de multas; ultrapassam sinais vermelhos, cortam caminhos por cima de calçadas, de gramados e dirigem na contramão; ligam suas sirenes, para que todos se-lhes abram passagem (sem a ninguém estarem perseguindo); e, o que é intrigante: muitas vezes, diante de congestionamentos ou acidentes, continuam seus percursos ou, quando estacionados, mantêm-se em suas viaturas, sem colaborarem para desfazer o caos.

 

Georg Christoph Lichtemberg já dizia que “quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”, parecendo dirigir sua fala ao nosso querido país, onde autoridades que detêm algum poder surram as leis e fazem delas letra morta; os carros oficiais são usados para fins particulares; policiais, em viaturas com licenciamento atrasado, pneus carecas e sinalização luminosa queimada, multam, com “ar professoral”, motoristas civis, por dirigirem com licenciamento atrasado, pneus carecas e sinalização luminosa queimada; as carteiradas, dadas após a pergunta “você sabe com quem está falando?”, são libertadoras; as propinas cegam as vistas dos fiscais e até apagam as memórias de máquinas, como as dos radares; e onde a regra é trabalhar o mínimo possível, já que o salário público virá ao final de cada mês, e para sempre, com certeza.

 

Abraham Lincoln, observando comportamentos humanos duvidosos, concluiu sabiamente que “o autorrespeito é a raiz da disciplina” e que “a noção de dignidade cresce com a habilidade de dizer não a si mesmo”, ou seja, ele nos mostra que devemos, mesmo quando não estamos sob os olhos fiscalizatórios alheios, agir com correção, negando-nos o trilhar pelos fáceis caminhos da insubordinação, cientes de que, se o contrário fizermos, atingiremos não só a nós mesmos e à nossa dignidade, mas, também, aos que conosco convivem em sociedade, o que confirma a máxima de Leon Tolstoi, no sentido de que “os homens não têm muito respeito pelos outros, porque têm pouco até por si próprios”.

 

Esperar de todos os cidadãos, no trânsito, autoexames e mudança de rumos, deixando as afrontas para assumirem posturas de subordinação às normas, creio, seria um sonho de impossível realização.

 

Por outro lado, querermos nos aproximar ao máximo dessa ideia, exigindo que nossas polícias sejam exemplares em seus comportamentos; que se movimentem, com atitude proativa, desçam de suas viaturas e organizem as pistas conturbadas; que se façam presentes, sem vistas grossas, em todos os lugares, punindo a todos – e sem exceção – os que já se acostumaram com sua ausência fiscalizatória; que tratem o certo como certo e o errado como errado, independentemente de quem pratica o ato; e que façam os infratores sentirem em seus bolsos as infrações que cometem – talvez a única linguagem eficaz para ativar-lhes o entendimento; é direito de cada um de nós, cidadãos, únicos patrocinadores de nossas forças policiais e razão de sua existência, o que fazemos entregando nosso dinheiro em impostos, esperando que venham contrapartidas que nos possibilitem viver em paz, quer seja pela retirada do convívio social, com prisão, dos que não conseguem adequar-se ao modo civilizado de vida, como, também, pela inibição de comportamentos infracionais, mediante a aplicação séria e educativa de dolorosas multas aos aventureiros do trânsito, adultos sem educação, os quais enquadram-se na aplicação familiar malsucedida da declaração de Pitágoras, de mais de 2.500 anos atrás, norteadora do direito, que nos ensina: “educai as crianças e não será preciso punir os homens.”

Enquanto nada acontece, “salve-se quem puder”.

 

FLÁVIO NORONHA

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