Um pai cuida de dez filhos. Mas dez filhos…

Por: Redação SOS

Nestes tempos em que o casamento tornou-se meio que um experimento de curto prazo; uma aventura socialmente conveniente, que propicia aos seus partícipes a passagem da impressão de que ascenderam de patamar na vida; ou, no caso de divórcio, que galgaram um degrau ainda mais elevado, o que seria demonstração de maturidade, ao ponto de decidirem por não continuar com relação infeliz, não importando muito o que a união literalmente gerou, ou seja, os inocentes filhos, que nunca pediram para nascer, repetindo aqui jargão popular; as figuras paternas e maternas têm perdido a nitidez para eles, que surgiram em meio ao modismo destruidor do “tudo pela felicidade”; do nada pela abdicação, pelo investimento e pelo compromisso.

 

Esta efemeridade, paradoxal aos votos sacramentais de união “até que a morte os separe”, tem esfacelado as células familiares, para as quais, o que Deus uniu pode ser desfeito sem qualquer receio, mandando-se para as “cucuias” promessas solenes feitas no altar de igrejas, onde o casal tenha pisado, talvez, apenas para cumprir regras de aparência social.

 

Com isso, pais que antes trocavam declarações do que mal julgavam ser amor, tornam-se adversários ferrenhos, contaminando suas almas e passando aos filhos mágoas da experiência de união alicerçada na areia, destruída por meras marolas de insensatezes.

 

O mísero tempo que lhes sobra para, doravante, vivenciar as bênçãos de uma paternidade ou de maternidade, são obstaculizados pela desconfortável alternância de períodos de guarda, de visitas, de férias, pelos novos companheiros ciumentos etc., embaçadores das figuras do pai e da mãe; fragmentadores da doação de carinho, da passagem de ensinamentos e da dispensação de exemplos de vida.

 

O foco nos filhos – sem influências do passado frustrado e do presente, das novas relações – é o desafio que se apresenta a quem, mesmo que de forma distante da ideal, deseja vivenciar o prazer do cumprimento da missão à qual se propôs quando da aliança espiritual e da notícia da semente fecundada, comemorada como presente divino; como consolidação da família; e como esperança de perene felicidade.

Hoje é o “Dia dos Pais”, homenagem originada nos Estados Unidos em 1909 e estabelecida no Brasil no ano de 1953. Por aqui, veio para coincidir com o dia de São Joaquim (14 de agosto), tido pela igreja católica como o patriarca das famílias.

 

Apesar de a data manter-se por circunstâncias comerciais, não se pode negar que ela funciona como um bom motivo para duas ou mais gerações sentarem-se à mesma mesa, em salutares confraternizações e festas, além de ser inegável deflagradora de gatilho emocional, liberador de benvindos desejos por reconciliação, reaproximação e reconstrução familiar.

 

Como seria bom se todos os dias do ano os filhos se dispusessem a voltar seus pensamentos e homenagens aos pais, com demonstrações – a conta-gotas e, eventualmente, por enxurradas – de carinho; de respeito; de agradecimento; de civilidade; de prontidão para assisti-los, ouvi-los, consolá-los, abraçá-los; tornando o dia “oficial” dos pais algo literalmente sem sentido.

 

Já que a maioria de nós ainda não vivencia esta realidade, o ideal, ao nosso alcance imediato, é que não dispensemos as oportunidades abertas por este dia de homenagens e que os presenteemos com o carinho e tudo o mais que tanto merecem.

 

Da minha parte, dirijo ao meu o seguinte texto e reflexões, confiante de que sirvam também aos pais de todos os leitores.

“Pai, como me sinto prestigiado por ter se empenhado em conscientizar do fato de que “o menino é o pai do homem” e de que o ato de “educar a criança evita o castigar do adulto”.

 

Muito obrigado, pai, pela riquíssima herança imaterial que me deixaste; por ter se esmerado em mostrar-me que “a sabedoria se aprende com a vida e com os humildes”; que “não devo levantar a voz contra os que não me entendem, mas, sim, melhorar meus argumentos”; que “o silêncio do seu coração é porto seguro para minhas aflições”; que eu, como pai que também sou, devo sabiamente “permitir que os meus filhos cometam erros”.

 

Muito obrigado, meu querido pai, pela certeza que hoje tenho de que o senhor sempre teve razão ao me repreender; por tudo o que em mim semeaste, certo de que colheria os frutos das semeaduras; por ter suprido a minha insaciável necessidade, de toda uma vida, pela sua proteção.

 

Obrigado pela sua sabedoria em buscar me conhecer verdadeiramente; por me ensinar que “aquilo que eu calar, aparecerá na boca do meu filho”; por ser, para mim, um símbolo de amor, de dedicação familiar, de patriotismo, de civilidade, de bons princípios, de moral, enfim, o melhor exemplo de homem que tive e tenho na vida.

 

Obrigado, pai, por ter me mostrado a dura realidade – contada e cantada em moda de viola, que é do “tempo do zagái” – de que “um pai cuida de dez filhos (Você fez isso), mas, muitas vezes, dez filhos não cuidam de um pai” (todos os seus te cuidam), o que jamais me permitirá dormir em paz ou me acomodar sabendo que, ainda hoje, posso de alguma maneira atender às suas necessidades.

 

Ao meu Pai do Céu, agradeço pelo presente de uma vida inteira ao lado do meu pai terrestre; por ter me permitido ver nele, desde cedo, sabedoria; e por me ensinar o dever de honrá-lo, como forma de obediência a um de Seus mandamentos e de prolongamento dos meus dias sobre a terra que o Senhor me dá.”

 

Que todos nós possamos, então, curtir os nossos pais – presencialmente ou por lembrança, para os que não os têm mais – ensinando aos nossos filhos aquilo que deles aprendemos, como forma de jamais deixarmos morrer conosco os valores da vida que tão especial e amorosamente nos foram passados por eles.

 

Vivam os pais em nossos corações!

 

FLÁVIO NORONHA

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